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13 de Julho de 2014 - 06:00

Especialistas minimizam possível relação entre o fracasso da Seleção nos campos e as eleições

Por RENATO SALLES

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Após pouco mais de um mês de estádios lotados, Hino Nacional à capela, sorrisos e lágrimas, a Copa do Mundo 2014 chega a seu desfecho hoje, com a disputa da grande final entre Alemanha e Argentina. Mesmo que para a maioria dos brasileiros o Mundial tenha acabado na última terça-feira, quando a Seleção foi goleada por 7 a 1 pelos alemães, o encerramento oficial da competição ocorre, de fato, no início da noite, quando a presidente Dilma Rousseff (PT) entregar a taça de campeão nas mãos do capitão da equipe vencedora. Fora das quatro linhas, os ecos acerca da organização do torneio - que retornou ao país após 64 anos pela caneta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) - podem perdurar durante o período eleitoral. Nos últimos dias, os resultados da competição já municiaram ataques mútuos entre os principais candidatos à Presidência, movimentação que se acentuou após o ocaso da equipe comandada pelo técnico Luiz Felipe Scolari.

Desde que o árbitro mexicano Marco Antonio Rodríguez apitou pela última vez na partida de última terça-feira, colocando um ponto final no tormento dos torcedores brasileiros, os três principais candidatos à Presidência não se furtaram a tornar público seus posicionamentos sobre a eliminação da Seleção e a Copa de forma geral, sempre com declarações incapazes de esconder seus objetivos eleitorais. Por um lado, a presidente Dilma, que tenta a reeleição, afinou discurso para lamentar a derrota esportiva do time de Felipão e exaltar a organização do evento por parte do Brasil. Por outro, o senador Aécio Neves, candidato pelo PSDB, criticou o que classificou como uma tentativa do Governo federal e da presidente de se apropriarem de um evento que, segundo ele, "seria de todos os brasileiros". Na contramão, o ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos, que disputa a Presidência pelo PSB, minimizou o assunto e prometeu deixar o tema de lado em sua campanha presidencial, o que, de certa forma, também pode ser vista como uma estratégia de campanha. Ao contrário de Romário, deputado federal, ex-jogador e candidato ao Senado pelo PSB do Rio de Janeiro, que não se cansa de afirmar que "fora de campo, já perdemos a Copa de goleada!".

 

Nenhuma relação

Deixando de lado o discurso dos candidatos, dois especialistas ouvidos pela Tribuna não acreditam em uma relação direta entre a Copa - levando em consideração o resultado alcançado pelo Brasil dentro de campo - e a corrida eleitoral. "A derrota em si (da Seleção Brasileira) não terá impacto algum sobre o processo eleitoral. Até mesmo pelo fato de que, antes do resultado, a oposição já vinha batendo na tecla da falta de sentido de o Governo fazer uso eleitoral de uma possível vitória da Seleção. Da mesma forma, ficaria muito estranho se agora alguém fizer uso eleitoral da derrota", avalia o cientista político da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Diogo Tourino.

O consultor e professor de marketing político Gustavo Fleury também não acredita que a derrota esportiva do Brasil possa se tornar uma ferramenta eleitoral para os candidatos de oposição. "O Brasil perdeu. Isso deixou todos brasileiros muito tristes. Muita gente atacou a Dilma nas redes sociais, mas isso não vai pegar no Governo. É de senso comum que o fracasso da Seleção não tem nada a ver com o Governo federal e com a presidente". Por outro lado, Fleury admite que, caso o time tivesse conquistado o torneio, a onda de euforia que se seguiria à vitória poderia ser favorável à candidatura do Governo. "Mas o fato de termos perdido não irá afetá-la a ponto de ser um fator responsável por uma virada de cenário. Dilma pode até perder a eleição. Certamente, teremos segundo turno, mas a Copa não será o fiel da balança nisso."

 

Polêmica tende a ser esvaziada

Para os dois especialistas, entretanto, o tema Copa não deve se ausentar do debate eleitoral. Principalmente por parte da candidatura da presidente Dilma, restando à oposição insistir na tecla de que várias intervenções prometidas para o evento não foram inauguradas. Entretanto, o consultor de marketing político Gustavo Fleury acredita que tais ponderações tendem a se enfraquecer diante da boa avaliação do evento por brasileiros e estrangeiros. "Apesar de a maioria das obras de mobilidade, transporte e infraestrutura não terem saído do papel, a Copa foi vendida para a população como um grande sucesso. E, o mais incrível, sem inserir a Fifa como agente principal da organização, mas, sim, colocando o próprio Governo como responsável por este êxito."

Para Diogo Tourino, diante do dito sucesso da organização da Copa, a derrota da Seleção não abrirá espaço para a oposição angariar votos. "A oposição pode desenterrar eventuais escândalos com relação ao dinheiro gasto nos estádios e aos abusos na organização, apenas. Em contrapartida, Dilma terá a seu favor uma Copa com elogios sucessivos sobre tudo o que ocorreu", avalia o cientista político. Na mesma linha, Fleury acredita que até mesmo temas polêmicos como os gastos com a realização do Mundial acabarão minimizados.

"Não será nada fácil para Aécio e Campos falarem da Copa, para atacar a presidente Dilma, nem mesmo se tratarem questões como suspeitas de superfaturamento em obras, pois há vários estados onde os estádios foram construídos governados por partidos que dão sustentação a suas candidaturas. Nesses casos, quem ficou responsável pela construção e aplicação de recursos foram os governos estaduais e não o Governo federal", lembra Gustavo.

 

No país, não há relação entre gols e urna

Desde que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1997, durante sua primeira gestão no Palácio do Planalto, aprovou uma emenda constitucional que instituiu no país a reeleição para cargos executivo no país, já se passaram quatro eleições. Todas realizadas em anos de Copa do Mundo. Em uma análise fria da relação entre os resultados da Seleção Brasileira e o das urnas é impossível traçar um paralelo capaz de defender o argumento de que o desempenho dentro de campo pode ser favorável ou prejudicial às candidaturas governistas. Em 1998, o duro revés da Seleção na final da Copa diante da França - 3 a 0 para os donos da casa com direito a show de Zidane e convulsão de Ronaldo - não abalou a candidatura de FHC, que acabou reeleito no primeiro turno, com 53% dos votos válidos.

Quatro anos depois, em 2002, o agora vilão Luiz Felipe Scolari comandou o time brasileiro na conquista do pentacampeonato, no Mundial disputado no Japão e na Coreia do Sul, com vitória de 2 a 0 sobre a Alemanha, com gols de Ronaldo. A onda de euforia surgida com a vitória, entretanto, não ajudou o candidato governista José Serra (PSDB). Mesmo com o apoio de Fernando Henrique e da máquina administrativa, Serra acabou derrotado por Lula no segundo turno. Em, 2006, a derrota brasileira para a França - 1 a 0 - na Copa da Alemanha não frustrou os objetivos de Lula que acabou reeleito. Da mesma forma, o revés diante da Holanda por 2 a 1, na África do Sul, em 2010, não foi empecilho para a candidata da situação, a presidente Dilma, chegar à vitória em sua primeira corrida presidencial.

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