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24 de Dezembro de 2013 - 07:00

Ex-sindicalista e deputado estadual, Riani integrou a comitiva do presidente João Goulart, em vista aos Estado Unidos em abril de 1962

Por Renato Salles

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Político integrou a comitiva do presidente João Goulart
Político integrou a comitiva do presidente João Goulart

Há 50 anos, quando a bala disparada pelo rifle de Lee Harvey Oswald literalmente explodiu a cabeça de John Fitzgerald Kennedy, então presidente norte-americano, o maior mito político mundial deixou a vida para entrar para a História. Um ano e sete meses antes, em abril de 1962, Estados Unidos e Brasil não faziam ideia dos momentos conturbados que se seguiriam. Sem imaginar que seriam protagonistas de grandes reviravoltas, os presidentes dos dois países, Kennedy e João Goulart, encontraram-se pela primeira vez, durante a visita do brasileiro a Washington e Nova Iorque. Na ocasião, Jango e sua comitiva foram recebidos em solo americano com pompa e desfilaram em carro aberto pelas ruas, em um ambiente festivo muito similar ao trágico assassinato de JFK em Dallas, em 22 de novembro de 1963. Quatro meses depois, João Goulart é deposto do poder por um golpe militar.

Aos 93 anos, o ex-sindicalista e ex-deputado estadual Clodesmidt, que construiu sua história política em Juiz de Fora, é um elo que mantém viva essa história. Convidado por Jango, Riani foi uma das dez pessoas que integraram a comitiva presidencial que visitou os Estados Unidos. O respeito como Goulart foi tratado pelos americanos permanece indelével na memória do ex-líder sindical, que, à época, exercia mandato na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e ocupava a presidência da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria (CNTI). "Quando chegamos lá, havia muita gente para nos receber. Todos batendo palma. O carro que que eu estava, seguia logo atrás do de Jango. Quando ele desceu em frente à Casa Branca, eu já havia descido. Naquele momento, ficamos eu, o Jango e o Kennedy."

Riani lembra a maneira informal como o próprio presidente João Goulart o apresentou para JFK. "Fui identificado como um agitador brasileiro, por conta da minha atuação sindical. Na hora, me defendi dizendo que era presidente de 'la Confederación Nacional de los Trabajadores de la Industria'", relembra sorrindo, arriscando um "portunhol". "Na apresentação oficial, quando chegou a minha vez de cumprimentar o Kennedy, ele me reconheceu e tive que parar por um tempo maior que os demais integrantes da comitiva. Mas como ele não falava português e eu não falava inglês, não conseguimos nos comunicar. Aquela era uma situação diferente, já que não era comum um operário integrar uma comitiva presidencial."

O ex-sindicalista teve ainda a oportunidade de jantar com nomes importantes da política norte-americana, como o então governador Nelson Rockefeller e Robert Kennedy, irmão mais jovem de JFK, que à época, ocupava o cargo de ministro da Justiça dos Estados Unidos. "Após o primeiro encontro com o presidente Kennedy na Casa Branca, fomos todos para um almoço. Na hora, já teve uma situação diferente. O Robert Kennedy ficou interessado e queria saber mais informação sobre minha atuação sindical. Mas também não conseguimos nos comunicar por conta da língua." Riani relembra com pesar a notícia da morte do ex-presidente americano. "Foi algo que nos pegou de surpresa e deixou a todos muito chateados, principalmente pela figura humana do presidente, que nos recebeu muito bem durante aquela visita."

Discurso presidencial

Para Riani, o momento mais marcante da visita de Jango aos Estados Unidos foi o discurso que o presidente brasileiro fez no Congresso Norte-Americano. "Jango defendeu aquilo que os brasileiros pensavam e foi muito aplaudido durante sua fala. Ele falou tudo o que precisava ser dito, em um ato de muita coragem." Após a visita aos EUA, a comitiva presidencial seguiu para o México. No retorno, todos os integrantes acabaram condecorados pela embaixada mexicana no Brasil. Além de Riani, também integraram o grupo nomes como os do senador Barros de Carvalho, do deputado Chagas Freitas, do chefe do gabinete militar Amaury Kruel e do ministro das Relações Exteriores, San Tiago Dantas.

 

Perseguição política e investigação de morte

Enquanto as teorias de conspiração sobre o atentado que vitimou John Kennedy voltaram à tona motivadas pelos 50 anos do assassinato do ex-presidente americano, no Brasil, o nome de João Goulart também voltou a ocupar o noticiário. No último dia 18, em ato simbólico, o Congresso Nacional devolveu o mandato de Jango. O diploma foi entregue ao filho do ex-presidente, João Vicente Goulart, pelas mãos do senador Renan Calheiros (PMDB). A sessão foi acompanhada pela presidente Dilma Rousseff e por lideranças das Forças Armadas. A medida foi proposta pelos senadores Pedro Simon (PMDB) e Randolfe Rodrigues (PSOL) e resultou na anulação da sessão do dia 2 de abril de 1964, na qual foi declarada vaga a Presidência da República. O afastamento de Jango abriu espaço para os militares assumirem o poder, em regime que perdurou até 1985, quando Tancredo Neves foi eleito pelo colégio militar.

Em novembro, o corpo de Goulart foi exumado em São Borja, no Rio Grande do Sul. Os restos mortais serão analisados por peritos que investigam se a causa da morte do ex-presidente, em 1976, foi causada por enfarte, como registra a versão oficial, ou envenenamento. Os estudos se justificam já que, nos últimos anos, surgiram evidências de que Jango poderia ter sido mais uma vítima da chamada "Operação Condor", organizada por regimes militares da América Latina para perseguir e eliminar líderes da esquerda, considerados inimigos dos governos então estabelecidos.

O sindicalista Clodesmidt Riani foi outro político perseguido pela ditadura e chegou a ser preso e torturado. Deputado estadual pelo PTB em 1964, ano do golpe militar, ele teve seu mandato cassado na ocasião, por imposição dos militares. O próprio Legislativo já reconheceu a arbitrariedade e recuperou a história do parlamentar e seu exercício do mandato. O ex-parlamentar voltou a ocupar uma cadeira na ALMG entre 1983 e 1987.

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