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18 de Maio de 2014 - 07:00

Detentores de mandatos estão expostos a problemas relativos a Copa e manifestações, enquanto opositores buscam identidade

Por Renato Salles

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Em outubro, os eleitores brasileiros serão chamados mais uma vez às urnas para escolher o nome que irá comandar os destinos do país pelos próximo anos, em uma cenário eleitoral onde a polarização entre o PT, da presidente Dilma Rousseff, e o PSDB, do senador Aécio Neves, será colocada mais uma vez à prova frente aos esforços para a viabilização de uma terceira via encabeçada pelo ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). Apesar de as cartas colocadas na mesa apresentarem semelhanças com pleitos passados, afirmar que cada eleição tem características próprias é chover no molhado. Entretanto, a disputa em 2014 apresentará um leque maior de especificidades, como a realização da Copa do Mundo no Brasil e a possibilidade latente de que a população vá para as ruas se manifestar contra o sistema vigente. Tais distinções sinalizam que este pode ser o processo eleitoral "mais competitivo e imprevisível dos últimos anos", como resume o cientista político da Universidade Federal da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Paulo Roberto Figueira Leal.

A opinião é compartilhada por outros especialistas. "Ainda que todas as eleições sejam marcadas pela imprevisibilidade, esta parece que terá a imprevisibilidade como sua marca principal, até mesmo pela razão de termos em jogo uma variável central - as manifestações de rua - que não estavam presentes nas outras eleições, pelo menos, não com esta dramaticidade", afirma Fernando Perlatto, sociólogo e cientista político ligado à Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). A dificuldade de apontar grandes diferenças nas práticas políticas dos candidatos de situação e de oposição é outra característica que deixa o jogo eleitoral em aberto, como avalia o professor de filosofia política da Universidade Federal de Campinas (Unicamp), Roberto Romano. "Temos um Governo federal que possui erros de políticos, econômicos e de comunicação, que acabam não sendo tão prejudiciais a sua imagem, pois os nomes de oposição seguem essa mesma lógica de prática política."

Os especialistas avaliam os impactos eleitorais que algumas das especificidades podem ter no pleito do dia 5 de outubro, em previsões que apontam maior suscetibilidade positiva ou negativa aos detentores de mandato com relação ao peso eleitoral da Copa, das manifestações públicas e da atual situação financeira do país.

 

 

Copa coloca Governo federal na berlinda

 

O fator genuinamente novo que pode influenciar o cenário eleitoral é a realização da Copa do Mundo no Brasil após um hiato de 64 anos. Considerada uma vitória em um primeiro momento - em 2007, quando o país foi escolhido como sede do evento, milhares foram às ruas em comemoração -, os gastos com o Mundial têm sido alvo de críticos e manifestantes. "Em caso de problemas de infraestrutura e dificuldades de execução, a tendência é de que a Copa possa trazer desgastes para a candidatura da presidente Dilma. Mas, com base no que observamos no momento, isso não deve necessariamente resultar em benefícios para os candidatos de oposição", avalia Romano. Para Perlatto, o peso eleitoral do Mundial pode existir em duas frentes, com possíveis ônus ou bônus recaindo sobre os ombros dos detentores de mandato. "As manifestações em torno do evento tendem a criar um clima de denúncia e crítica aos governantes, impactando a rejeição aos mesmos e levando a um menor comparecimento às urnas. As mobilizações não são suficientes para a derrota dos atuais governantes, mas o clima de desconfiança e descrédito que elas provocam pode contribuir para a mudança de cenários. Por outro lado, ainda que não haja uma correlação histórica entre resultados da Seleção e resultados eleitorais, um desempenho positivo ou negativo pode contribuir para amenizar ou potencializar as críticas aos governantes, levando a alterações significativas do quadro eleitoral."

 

 

Protesto nas ruas pode pautar campanhas 

 

Os três especialistas entendem que, assim como aconteceu durante a Copa das Confederações, as manifestações populares podem encontrar, nos dias de disputa da Copa do Mundo, um campo fértil para sua intensificação, e surgem como ferramentas importantes para as discussões durante a campanha. Caso a tendência se confirme, mais uma vez, os donos de mandato estarão na berlinda. "Não sabemos ainda se as manifestações conseguirão mobilizar o mesmo número de pessoas, mas acredito que ganharão novas tonalidades. Por um lado, serão impulsionadas por setores mais organizados da sociedade. Por outro, é possível que elas ocorram com maior intensidade, promovendo conflitos mais fortes. Assim os protestos tendem a afetar as eleições, na medida em que muitos dos que ocupam as ruas criticam a incapacidade dos representantes eleitos de darem respostas satisfatórias a problemas que ocorrem no país." Os especialistas acreditam ainda que uma possível retomada das mobilizações de rua pode resultar em um baixo comparecimento às urnas. "Os blocos mais radicais - como os black blocs - são críticos das três candidaturas apresentadas até o momento. Porém, essas manifestações podem ajudar a pautar as campanhas, visto que, em 2013, foram preponderantes para derrubar vários temas prejudiciais à população que tramitavam no Congresso, como a PEC 37 (proposta de emenda à constituição que pretendia dar poder exclusivo à polícia para realizar investigações criminais, retirando essa possibilidade do Ministério Público) e até uma possível atenuação da chamada Lei da Ficha Limpa", lembra Romano.

 

Escândalos tendem a ser minimizados

 

Apesar de não se tratar de fator novo nos meses que antecedem as eleições, escândalos políticos envolvendo nomes ligados aos principais candidatos repercutem na mídia nacional de forma recorrente. Entretanto, sua utilização como arma política de efeito prático é minimizada por Paulo Roberto. "A ter como parâmetro eleições anteriores, essas variáveis podem ter pouco impacto. O início da crise do 'mensalão' não impediu a reeleição de Lula. Da mesma forma, o auge da visibilidade de seu julgamento, em 2012, teve efeitos ínfimos - tanto que o PT venceu a Prefeitura de São Paulo (elegendo o ex-ministro Fernando Haddad)", avalia o cientista político da UFJF, citando pleitos recentes vencidos pelos petistas. Também levando em consideração este histórico, Roberto Romano não crê na utilização de casos de corrupção - como CPI da Petrobras e cartel do metrô de São Paulo - como ferramenta de ataque entre as candidaturas. "A tendência é a discrição, até porque a oposição no país dificilmente merece receber esse rótulo (de oposição). Todos os partidos têm a preocupação de se perpetuar no poder, seja na Presidência ou em governos estaduais. Lidam muito mal com a sucessão, em uma herança do absolutismo imperial. Não há quem queira acabar com esse Executivo centrista, que acaba se caracterizando como gigante de pés de barro, pois utiliza o Legislativo conforme seus interesses e acaba atingido por erros daqueles que ocupam cargos nos parlamentos. Por essa característica, podem até existir ensaios de agressões valendo-se de escândalos, mas, no fundo, todos os candidatos têm esqueletos apodrecendo em seus baús."

 

Economia deve ter impacto real

 

Para Paulo Roberto Figueira Leal, de todos os temas discutidos, o que deve ter impacto real no processo eleitoral são os debates em torno da situação econômica do país. "São temas caros para certos nichos do eleitorado, o que pode ser muito importante se a eleição for parelha e muito competitiva." Neste contexto, temas como a manutenção do ganho real do salário mínimo, a política de juros, a empregabilidade e as metas de inflação são pautas certas nos discursos de campanha das três candidaturas apresentadas. "Ainda que a economia não tenha condição de definir por completo o resultado das eleições - na medida em que outras variáveis sejam decisivas para o voto do eleitor, como, por exemplo, a situação do emprego, ou o próprio desempenho dos candidatos -, a depender do índice da inflação, esta pode ser uma variável importante, pelo fato de o eleitor 'senti-la' cotidianamente", resume Fernando Perlatto. Entretanto, ao contrário dos temas discutidos acima, que podem atingir diretamente aqueles que ocupam cargos executivos, Romano acredita que este é um dos pontos em que a candidatura do Governo federal pode sair beneficiada. "Este é um ponto de destaque do Governo que conseguiu manter uma taxa de emprego razoável, principalmente, comparando-se a países de primeiro mundo que vivem uma situação delicada neste sentido. Isso é muito importante em termo de votos e uma ferramenta importante para minar as ações da oposição."

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