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09 de Março de 2014 - 06:00

Ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, José Maria Nicodemos, sabia do clima interno dentro do Exército e temia pelas consequências do movimento

Por HÉLIO ROCHA

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Dos fundos de sua casa, Celma Nicodemos presenciou vários encontros entre Mourão e Magalhães Pinto
Dos fundos de sua casa, Celma Nicodemos presenciou vários encontros entre Mourão e Magalhães Pinto
Mansão do Exército em que general Mourão recebia o governador Magalhães Pinto para tramar o golpe
Mansão do Exército em que general Mourão recebia o governador Magalhães Pinto para tramar o golpe
Darcy Albuquerque presenciou reuniões entre seu pai e o general Serpa:
Darcy Albuquerque presenciou reuniões entre seu pai e o general Serpa: 'depois do golpe, ele disse que já sabia de tudo'
Magalhães Pinto acena ao lado do general Mourão no Centro de Juiz de Fora em março de 1964
Magalhães Pinto acena ao lado do general Mourão no Centro de Juiz de Fora em março de 1964

Antes que as tropas da 4ª Região Militar de Juiz de Fora partissem para o Rio de Janeiro e abrissem um novo capítulo da História do Brasil, com o Golpe Militar de 1964, lideranças militares e civis já arquitetavam o movimento na cidade. A Tribuna entrevistou duas testemunhas desses encontros, que narram sob óticas diferentes momentos que antecederam o 31 de março de 1964. As histórias são contadas por Celma Nicodemos, então vizinha do general Olympio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, e por Darcy Albuquerque de Mendonça, 72, filha do veterano da Revolução de 1930 Nelson Cavalcanti, que recebeu várias visitas do general Antônio Carlos de Andrada Serpa, outro importante articulador do golpe dentro do Exército. Os relatos têm em comum a impressão do sigilo em relação ao que era conversado nas reuniões, que, à época, deixaram famílias e vizinhos intrigados, até que tudo fosse revelado nos meses seguintes ao abril de 1964.

Celma lembra dos vários encontros que ocorreram na casa do general Mourão, na Rua Barão de Cataguases, Centro. Um dos mais assíduos era o então governador de Minas Gerais pela União Democrática Nacional (UDN), Magalhães Pinto (1961-1966). "Foi feito tudo debaixo de muito sigilo. Acho que eles conversavam até sob a luz de velas. Ninguém conseguiu antecipar nada. Foi um negócio de mineiro, mesmo. Mineiro com todas as letras. Nem os vizinhos sabiam de nada. Absolutamente nada." Os encontros, segundo a dona de casa, não chamavam a atenção da maior parte das pessoas. Periodicamente, sem alarde, sem carros de segurança, sem esquema especial, Magalhães comparecia à mansão, dias em que mesmo a movimentação dos empregados permanecia praticamente inalterada. Celma o identificava apenas porque ela e o pai eram ávidos leitores do jornal do também udenista Carlos Lacerda, a "Tribuna da Imprensa".

A dona de casa já vivia onde reside até hoje, na Rua Paula Lima, Centro. Dos fundos de sua casa, era possível avistar toda a movimentação da residência onde vivia o comandante da 4ª Região. A mulher presenciou as constantes visitas do governador de Minas, que hoje é considerado um dos principais articuladores civis do Golpe Militar. As lembranças sobre os dias de convulsão trazem à tona um país em estado de alerta, em que as informações eram escassas e confusas, ao passo que o discurso das lideranças políticas enfatizava o embate entre comunismo e capitalismo, dos tempos da Guerra Fria. Ela estava em São Paulo nos dias em que o general partiu para o Rio.

"Não se sabia o que estava acontecendo. Não tinha comunicação para lugar nenhum, porque as linhas estavam bloqueadas. A televisão era a única forma de informação." Celma conta que, durante o dia 31 de março, o então governador de São Paulo pelo Partido Social Progressista (PSP), Adhemar de Barros (1963-1966), fez pronunciamentos na televisão, em apoio à iniciativa dos militares e à deposição do presidente João Goulart (Jango, 1961-1964), do antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Entretanto, as pessoas demoraram a perceber o que estava acontecendo. "Chegamos a pensar que Minas Gerais estava se separando do Brasil. A notícia no rádio dizia que todo o armamento da 4ª Região estava na Rua Marechal Deodoro, em frente aos correios", relata.

Medo de guerra civil

A marcha de Olympio Mourão Filho, que deixou Juiz de Fora no dia 31 de março de 1964, chegou ao seu destino no dia 1º de abril. Ela desencadeou outras iniciativas, como a liderada pelo general Antônio Carlos da Silva Muricy, que saiu de São Paulo em direção ao Rio. Por outro lado, o general Armando de Moraes Âncora, legalista, estava ao lado de João Goulart e tentou evitar a chegada dos militares vindos de São Paulo pela Via Dutra (Avenida Presidente Dutra, BR-116). O confronto não aconteceu apenas porque Âncora foi interrompido em Resende pelo recrudescimento das tropas da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). Os militares da Aman eram comandados pelo general Emílio Garrastazu Médici, que anos mais tarde seria presidente da República (1969-1974). Embora a ação militar de Mourão seja hoje lembrada como uma iniciativa praticamente sem vítimas, à época, segundo testemunhas, o país viveu clima de instabilidade e medo de guerra civil. 

Este temor, nos dias em que foi deflagrada a ação militar, mobilizou a família de Celma. O irmão da aposentada, José Maria Nicodemos, 92, fora militar e combatera nos campos de batalha da Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Por isso, tinha a dimensão do que poderia acontecer no Brasil, caso se mantivesse o cenário de divisão e insubordinação no Exército. Preocupado com a irmã, José Maria, que naquele tempo trabalhava como taxista, pediu a um de seus colegas para encontrá-la em São Paulo. Ele conta que, antes de os generais se dividirem quanto à deposição de João Goulart, houvera um movimento de indisciplina dentro das Forças Armadas. "Esse movimento, que incluía principalmente um grande número de sargentos, pesou definitivamente na decisão daqueles que assumiram a responsabilidade pela revolução." Um dos principais líderes da onda de insubordinação dentro das Forças Armadas foi o cabo José Anselmo dos Santos, que liderou um protesto de mais de dois mil marinheiros no Sindicato dos Metalúrgicos, no Rio de Janeiro.

 

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Muitos militares, segundo o veterano, associavam o quadro de insubordinação à suposta "infiltração comunista" que partia do comando do país e chegava aos mais diversos estratos da sociedade. O temor dos militares, da classe média e das oligarquias rurais, já existentes desde que Jango assumira após voltar de uma viagem à China comunista, intensificara-se após ser outorgado um decreto presidencial desapropriando terras às margens das rodovias brasileiras, a fim de promover a reforma agrária. Em meio a este cenário, José Maria tomou sua decisão. Enquanto os generais ainda se movimentavam pela Via Dutra e decidiam os rumos da democracia brasileira, o ex-combatente da Segunda Guerra encontrou um colega que estava a caminho de São Paulo e pediu que ele buscasse Celma.

A dona de casa conta que, andando preocupada no Bairro do Tatuapé, Zona Norte de São Paulo, avistou um carro com placa de Juiz de Fora e foi pedir informações. O motorista disse que estava ali à procura da irmã de um colega e, estarrecidos, os dois perceberam que se encontraram por acaso, na maior cidade brasileira. Celma sabia que estava segura e poderia voltar a Juiz de Fora. "Foi uma emoção que eu não consigo descrever. Finalmente, soube que estava tudo bem."

Outra testemunha das articulações que precederam aquele 31 de março de 1964 é a dona de casa Darcy Albuquerque de Mendonça. Ela é filha de um ex-combatente da Revolução de 1930, que alçou Getúlio Vargas ao poder. Meses antes do Golpe Militar de 1964, a casa onde morava na Rua Doutor José Cesário, no Bairro Alto dos Passos, Zona Sul, também foi a sede de encontros entre militares para articular a ação do dia 31 de março. O general Antônio Carlos de Andrada Serpa, um dos principais parceiros de Mourão na iniciativa de depor João Goulart, encontrou-se naquele ano com o pai de Darcy para conversar sobre os planos da 4ª Região. O capitão Nelson Cavalcanti Lopes de Albuquerque, à época já reservista, foi visitado várias vezes em sua residência pelo general e, anos mais tarde, relatou à família que já sabia do golpe.

O ex-combatente de 1930 lutara em Recife, cidade com características em comum com o Rio de Janeiro, e deixara o combate como um herói local. À época um sargento que integrava as tropas getulistas lideradas pelo tenente Juarez Távora, Nelson resistira, aquartelado em sua unidade militar junto a poucos companheiros, ao ataque das forças leais ao governador pernambucano Estácio Coimbra, que seria deposto pelos revolucionários. Mais tarde, fora transferido para Juiz de Fora, onde estabelecera família e tornara-se amigo do general Serpa. Naquele início de ano, os encontros entre os dois foram periódicos e sigilosos. "Ele vinha até a nossa casa com todo o aparato de segurança de um general. Quando eles entravam para a sala de visitas, todos tinham de sair", descreve a filha do capitão, Darcy Albuquerque de Mendonça.

Dos encontros entre Serpa e Nelson podem ter saído informações contundentes sobre o que os militares poderiam enfrentar ao ocupar o Rio de Janeiro, embora o capitão e o general jamais tenham mencionado o conteúdo das conversas para a filha. Nelson morreu em 1975 e Serpa, 21 anos mais tarde, em 1996. Anos depois, o general seria, inclusive, um opositor do regime, tendo sido punido com prisão domiciliar de 48 horas durante o governo do general João Baptista de Oliveira Figueiredo (1979-1985), por declarar-se a favor da redemocratização do país. "A única coisa que sabemos é que, depois do golpe, meu pai disse que 'já sabia do que estava para acontecer' no Brasil", conta Darcy.

Um dos incidentes inusitados provocados pelos encontros entre o ex-combatente e o general teve como protagonista o filho mais novo do capitão. Sérgio, com o ele se chamava, era boêmio, passava horas fora de casa e mantinha uma barba farta. Num dos dias em que voltava da rua, quando uma reunião transcorria entre os militares, e o aparato de segurança estava a postos na Rua Doutor José Cesário, o jovem foi impedido de entrar na própria casa. Segundo a filha do capitão, o irmão, em virtude de sua aparência, fora confundido com um comunista. "Ele tentou se identificar, mas os soldados não acreditaram, pensando ser um comunista. Apenas após o meu pai autorizar os soldados, ele pôde entrar."

Cinquenta anos depois, as reminiscências dos acontecimentos das semanas anteriores ao 31 de março de 1964, quando visitas às escondidas e diálogos confidenciais delinearam o futuro da política brasileira, evidenciam o quanto o silencioso modo mineiro de fazer política foi fundamental à concretização do golpe militar. Conforme conclui grande parte dos historiadores, o golpe é essencialmente mineiro.

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