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26 de Janeiro de 2014 - 07:00

Estratégia, iniciada na última semana, visa a garantir maior representatividade de Juiz de Fora tanto na Assembleia como no Congresso Nacional

Por HÉLIO ROCHA E RENATO SALLES*

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Setores da iniciativa privada começaram, esta semana, a se articular para aumentar as chances de vitória dos candidatos locais nas eleições de 2014. A ideia é fazer da representatividade nos Legislativos federal e estadual uma ferramenta para viabilizar o crescimento econômico da região. Para tal, uma das estratégias seria aproveitar a força do terceiro setor em Juiz de Fora, para disseminar uma campanha em prol dos nomes da cidade no pleito deste ano. O município teria, segundo especialistas, condições de eleger quatro deputados federais e quatro estaduais, mas obtém resultados aquém deste número, em virtude da boa votação em candidatos de outros municípios.

Na última quarta-feira, o presidente da Associação Comercial de Juiz de Fora, Aloísio Vasconcelos, esteve com o estrategista político Edson Fonseca, para discutir o assunto. Para ambos, a presença de representantes locais em Belo Horizonte e Brasília é fundamental para o desenvolvimento da região, visto que os parlamentares podem destinar recursos para obras importantes, bem como facilitar a atração de empresas. O intuito de formar uma força-tarefa para conscientizar o eleitorado a votar em candidatos da cidade e aumentar a representatividade parlamentar de Juiz de Fora encontra suporte na matemática. Levando em consideração os números absolutos computados nas eleições de 2010, a votação obtida por "forasteiros" nas urnas juiz-foranas poderia eleger pelo menos mais um parlamentar para cada casa legislativa.

"O deputado estadual atua próximo ao Governo do estado, o que pode ajudar na isenção de um imposto ou na obtenção de um terreno para atrair uma empresa para o município. Já o federal atua junto à União, que dispõe da maior fatia dos recursos públicos, e pode, por meio de suas emendas parlamentares, destinar recursos para a região, de modo a viabilizar obras estruturais que vão servir à população e às empresas do lugar", explica Aloísio. Segundo Edson, Juiz de Fora costuma estabelecer uma representação no Legislativo estadual e federal que, se comparada com a de outras cidades, mostra-se decepcionante.

"Uberlândia já nos deixou para trás há muito tempo. Montes Claros tem mais representantes que nós, e metade da população. Mesmo Muriaé, na Zona da Mata, tem mais representantes, proporcionalmente, que Juiz de Fora." Edson estabelece o número ideal de parlamentares locais em quatro deputados federais e quatro estaduais, o que poderia ser alcançado neste ano. "Só a região de Benfica elege um deputado estadual e um federal, já que a população lá é maior do que a de metade dos municípios mineiros. É necessário a população se unir e fazer um trabalho por Juiz de Fora."

O Sindicomércio Juiz de Fora, entidade patronal dos estabelecimentos comerciais na cidade, já trabalhou, nas eleições 2010, pela eleição de candidatos locais. O presidente do sindicato, Emerson Belotti, afirma que o eleitor juiz-forano costuma pulverizar os votos em candidatos de diversas outras cidades e regiões. "Essa é uma característica da cidade e foi percebida por candidatos de outras regiões, que vêm aqui fazer campanha. Por isso temos essa campanha junto à população e ao empresariado, de recomendar o voto em candidatos da cidade, sem envolver a preferência pessoal ou partidária."

 

 

Fiemg cobra qualidade dos representantes

A importância do aumento do número de representantes é reconhecida pelo presidente da Federação das Indústria de Minas Gerais (Fiemg)/Regional Zona da Mata, Francisco Campolina. Entretanto, ele é receoso quanto a estimar a melhoria na economia e na qualidade de vida no município com base na quantidade de deputados eleitos. Ele conta que, em 2002, liderou um movimento parecido, na condição de presidente do Centro Industrial de Juiz de Fora. Segundo Campolina, a ampla divulgação do movimento, que repercutiu em toda a cidade, fez com que o Centro Industrial perdesse o controle do movimento.

"Candidatos mudaram o domicílio eleitoral para Juiz de Fora, porque ficaram sabendo que havia esta iniciativa. Alguns faziam de tudo para entrar na nossa lista de nomes locais que disputavam a eleição, outros passaram a fazer o mesmo discurso, proclamando-se candidatos da região. O fato é que a cidade, naquele ano, elegeu quatro deputados estaduais e cinco federais, todos com domicílio eleitoral no município. Logo depois, porém, alguns desses parlamentares voltaram as costas para Juiz de Fora."

Campolina argumenta que os percalços encontrados na campanha passada não tiram o mérito da nova iniciativa, que tem o seu apoio. No entanto, ele defende que a população eleja candidatos locais, independente de quantos sejam, mas valorize seus mandatos e cobre dos parlamentares uma atuação em prol da cidade. "É possível eleger mais deputados de Juiz de Fora, mas isso não é o mais importante. O importante é termos representantes que trabalhem para o desenvolvimento da cidade."

 

 

'Forasteiros' elegeriam um de JF

Em 2010, a corrida pelas cadeiras da Assembleia e da Câmara dos Deputados apresentaram uma votação bem distribuída em Juiz de Fora, com boa parte dos candidatos sendo lembrada pelos juiz-foranos (ver quadro). A maioria dos votos se concentrou nos candidatos locais. Entretanto, em ambos os casos, a votação obtida por postulantes com domicílio eleitoral em outros municípios seria suficiente para aumentar a representatividade parlamentar de Juiz de Fora. Ao menos, levando-se em consideração apenas os números absolutos, desconsiderando o quociente eleitoral.

Na disputa pela Câmara, Juiz de Fora elegeu dois deputados federais, Júlio Delgado (PSB) e Marcus Pestana (PSDB). Mais votada na cidade, com 66.779 votos, Margarida Salomão (PT) ficou como primeira suplente de sua coligação e acabou herdando uma cadeira no início de 2013. Somados, o desempenho dos forasteiros chegaram a 57.518 votos. Levando em consideração que o parlamentar eleito com a menor votação foi Rodrigo Grilo (PSL), com 40.093 votos, o número poderia ser suficiente para garantir um quarto deputado federal juiz-forano.

O candidato de fora que apresentou melhor desempenho no município foi Stéfano Aguiar (PSB, com 5.676 votos), que, então no PSC, conquistou uma vaga na Câmara como suplente de sua coligação. Após a troca de partido, o deputado corre o risco de perder o mandato por infidelidade partidária, o que beneficiaria o vereador juiz-forano Noraldino Júnior (PSC), que computou 7.239 votos nas urnas juiz-foranas. Entre os deputados federais eleitos com boa votação na cidade, figuraram George Hilton (PRB, cm 5.086 votos), Luiz Fernando Faria (PP, com 4.843 votos) e Eros Biondini (PTB, com 4.193 votos).

A corrida pela Assembleia apresentou cenário semelhante, e dois candidatos com domicílio eleitoral em Juiz de Fora foram eleitos. Mais votado na cidade com 43.429, Bruno Siqueira (PMDB) deixou a ALMG no início do ano passado, quando assumiu a Prefeitura, O outro eleito foi Lafayette Andrada, que também possui forte ligação com Barbacena e região. Os forasteiros somaram 59.856 votos. Em uma análise fria, este número seria suficiente para eleger mais uma parlamentar juiz-forano, já que o deputado Fabiano Tolentino (PPS) foi eleito com a menor votação computando 31.182 lembranças.

Entre os deputados estaduais eleitos que não possuem domicilio eleitoral em Juiz de Fora, as melhores votações foram apresentadas por Carlos Henrique (PRB, com 4.422 votos), Sargento Rodrigues (PDT, com 4.084 votos) e Bráulio Braz (PTB, 2.520 votos).

 

 

 

Sistema atual é dificultador

Norte-americano radicado no Brasil, o cientista político da Universidade de Brasília (UnB), David Fleischer, defende a importância de cidades como Juiz de Fora batalharem pela ampliação de sua representatividade parlamentar. O especialista considera válida a movimentação de algumas lideranças e entidades locais para atingir tal anseio. Porém, vê no atual sistema eleitoral um elemento dificultador. "Penso que este movimento 'localista' em Juiz de Fora é muito importante e apropriado. O problema é que, com o sistema de representação proporcional com lista aberta, a cidade acaba tendo muitos candidatos 'nativos', divididos em partidos diferentes. Essa realidade dificulta que candidatos de cidades como Juiz de Fora alcancem o quociente eleitoral."

A ponderação de Fleischer vai ao encontro da proposta do deputado federal juiz-forano Marcus Pestana (PSDB), que defendeu a adoção do voto distrital misto, com uma variante do voto proporcional, que seria regionalizado, durante as discussões sobre a reforma política no Congresso no final do ano passado. "O voto distrital seria um primeiro passo para aproximar o eleitor e o seu representante na classe política, desde que haja o que eu chamo de 'ponte de representatividade' entre os anseios da população e o eleitor. Ou seja, que os anseios da população, o discurso e a prática do político estejam alinhados", afirma o cientista político do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES-JF), Marco Aurélio Zuchi.

Para Zuchi, entretanto, mais do que aumentar a representatividade em termos numéricos é preciso evoluir nas práticas políticas. "Atualmente, a classe política, de forma geral, vive uma crise de representatividade. Hoje, há uma grande distância entre o político e o eleitor. A maior prova disso foram as manifestações de junho. Acredito que a iniciativa é válida desde que o discurso não seja vazio. É importante que o eleitor seja, de fato, representado pelo candidato. Juiz de Fora possui muitos votos e poucos representantes no cenário nacional."

 

*Colaborou Pedro Brasil

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