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29 de Junho de 2014 - 06:00

'Não queremos entrar na onda do marketing político'

Por HÉLIO ROCHA

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Fidélis: PSOL e PSTU são partidos ideológicos
Fidélis: PSOL e PSTU são partidos ideológicos

Fidélis Alcântara é publicitário, participou da militância estudantil nos anos 1990 e, nos últimos anos, tem atuado em diversos grupos engajados na luta social em Belo Horizonte, sobretudo o movimento "Direito à cidade", que reivindica melhorias na estrutura urbana, serviços e transporte público na capital. Milita, desde 2010, no Comitê Popular dos Atingidos pela Copa (Copac). Este ano, encabeça chapa do PSOL ao Governo estadual, tendo como candidata a vice-governadora a sindicalista Victória Melo (PSTU), que foi candidata a prefeita por Juiz de Fora em 2012. À Tribuna, Fidelis expôs suas propostas, defendeu a semelhança entre PT e PSDB e explicou por que sua chapa abre mão de doações de empresas.

Tribuna - Como ocorreu a consolidação da candidatura? Como será trabalhar com a Victória, candidata a vice-governadora na chapa, que é da região?

Fidélis Alcântara - Tínhamos ideia de uma candidatura do PSOL, depois partimos para formar uma frente de esquerda. Fechamos com o PSTU. O PCB decidiu sair com candidato próprio, para se fortalecer. Quanto à Victória, nossa vice, eu a conheci há algum tempo, quando começamos a consolidar a chapa. Tivemos uma reunião no dia 18, quando apresentamos a coligação à imprensa. Ela é uma batalhadora da educação, que tem uma postura muito forte na luta dos trabalhadores e na luta feminina pelo respeito aos direitos da mulher. Trás um grande diferencial na campanha. Estamos negociando, agora, com movimentos sociais, para angariar mais apoio.

 

- Você já tem algum projeto para a Zona da Mata? Pretende passar por aqui?

- Vamos visitar a Zona da Mata em julho, no mais tardar em agosto. Pretendemos fazer um seminário programático. Minas Gerais tem peculiaridades muito fortes em cada região, o que torna necessário debater as demandas regionais. O que nós já estudamos junto ao Álvaro Lobo (pré-candidato a deputado federal pelo PSOL), por exemplo, é sobre o entorno do Parque Estadual do Ibitipoca, onde o Instituto do Estado de Florestas (Iefa) pretende criar uma área de amortecimento. A forma como isto está sendo conduzido não é correta. Muito perto dessa área há locais de grande uso de agrotóxico, o que tem contaminado as reservas. É preciso ser feito um trabalho melhor para a preservação do parque e de seus limites, evitando monoculturas e agrotóxicos pesados nessa região, também protegendo os rios que passam por ela.

 

- Que visão o senhor tem sobre a gestão tucana à frente do estado, que já completa doze anos?

- Nós temos uma gestão elitista e extremamente conservadora, que prioriza o atendimento dos interesses das elites comercial e industrial em detrimento do atendimento à demandas básicas da população. Há um sucateamento dos serviços públicos e uma precarização das condições de trabalho dos servidores. Também há uma Polícia Militar (PM) cada vez mais repressora, que trabalha nas periferias das cidades como um verdadeiro "exército" que tem a população por inimigo. Isso tudo precisa mudar.

 

- Como o senhor se posiciona na polarização PT-PSDB, que tende a protagonizar mais uma vez as eleições?

- Os primeiros quadros do PSOL deixaram o PT por acreditar que o PT passou a utilizar práticas políticas idênticas às do PSDB, o que eliminou as diferenças entre os dois. O perfil do PT hoje é similar ao do PSDB, o que transforma essa polarização não numa oposição de ideias e projetos, mas de legendas e seus interesses, de usineiros, banqueiros, empreiteiros. São partidos que trabalham para 1% da população. Os financiadores de campanha dos dois partidos são os mesmos, inclusive. Não há uma polarização de políticas e propostas. Quem faz isso é o PSOL, que tem ideologias e propostas para a população.

 

- Minas Gerais é o segundo maior colégio eleitoral do país, o que torna importante a forma como o PSOL se coloca no estado. Hoje, o partido tem apenas um senador (Randolfe Rodrigues - AP) e três deputados federais (Jean Willys - RJ, Chico Alencar - RJ e Ivan Valente - SP). Como fazer para ser competitivo nas eleições sem receber dinheiro de empresas, como prevê o estatuto do partido?

- Nosso candidato a senador é o Geraldo Araújo, do PSTU, um metalúrgico de Contagem, que vai nos proporcionar uma candidatura diferente das outras e muito competitiva. Ele traz a voz dos trabalhadores. Nossa competição se faz no campo das ideias e das propostas, por isso a gente não recebe um centavo de qualquer empresa. Não admitimos que nossa campanha seja financiada por bancos, pelo agronegócio, pelas multinacionais, por grandes empresas. É uma forma de manter a autonomia. Não dá para nós criticarmos a forma como é conduzido agronegócio, por exemplo, se nós recebemos doação de campanha dos grandes produtores. Nós acreditamos também que a campanha deve ser feita levando novas perspectivas para a população. Não queremos entrar na onda do marketing político, cujo objetivo é ganhar votos a todo custo. Não estabelecemos relações que prejudiquem a realização das políticas públicas que buscamos. O PSOL e o PSTU são partidos ideológicos.

 

- Há expectativa de eleição de algum deputado em Minas?

- Temos expectativas tanto para eleição de deputados federais quanto estaduais. A nossa luta é para conseguir eleger mais de um. Para tal, vamos convidar a população para que se engaja na nossa campanha. Serão candidatos que vão chegar nas casas legislativas e cobrar uma auditoria pública das dívidas do Estado, melhores condições de vida para os trabalhadores, medidas mais efetivas para saúde, educação e transportes.

 

- Como será financiada a campanha? Qual o orçamento de que dispõe o partido?

- Esperamos contar com R$ 35 mil, provenientes de doações de cidadãos que acreditam no programa dos partidos que compõem a aliança, além do dinheiro que vem da venda de materiais dos partidos, como bandeiras, adesivos e camisas.

 

- Qual será o tempo da coligação na propaganda de rádio e TV?

- Temos que consolidar o número de candidatos a deputado para saber com precisão o nosso tempo. Se tivermos quatro candidatos, como nós estamos esperando, teremos dois minutos e meio. Nós queremos fazer um programa bem interessante, que desperte nas pessoas a vontade de procurar mais informações. Um programa propositivo e provocativo, que faça as pessoas identificarem propostas claras de mudanças para as políticas do estado, com continuidade do conteúdo nas redes sociais e na movimentação da militância nas ruas.

 

- O PSOL esteve presente em vários protestos contra a Copa do Mundo. Como o senhor vê esse movimento? E por que agora, durante a disputa, ele parece arrefecer?

- O movimento foi muito importante, de caráter horizontal, de entidades que se uniram para fazer a luta. No ano passado, ele ganhou uma força e uma visibilidade muito grande, mas houve uma repressão muito violenta e nós acompanhamos, às vésperas da Copa, notícias que sempre falavam da violência das manifestações, o que fez as pessoas ficarem com medo. Ninguém fala das pautas das manifestações, mas sempre se fala em questões pontuais de violência. Tem também a questão da forma como o futebol emociona as pessoas, a todos nós, na verdade, o que volta as atenções de todos para a Copa.

 

- Como a sua campanha tratará de temas como a legalização das drogas e a descriminalização do aborto?

- Essas são questões federais, para as quais o PSOL tem posição clara. As drogas, sobretudo a maconha, não são caso de polícia, mas de políticas sociais que precisam ser desenvolvidas. Não é uma questão apenas de legalizar, mas de regulamentar, permitindo apenas o cultivo individual, a venda e o consumo em espaços especializados determinados. Deve haver, também, campanhas sobre a prevenção do abuso das drogas. O que não pode é a questão das drogas ser transformada em caso de polícia, que se desdobra numa "luta" não contra as drogas, mas contra os pobres. Quanto ao aborto, a questão é garantir à mulher o direito sobre o próprio corpo, o que não significa incentivar o aborto. Ninguém é "a favor" do aborto, mas defende-se uma política que não criminalize a mulher que opte por fazê-lo.

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