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11 de Maio de 2014 - 06:00

Após período de crescimento, candidatos defendem qualidade

Por HÉLIO ROCHA

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A disputa entre as três chapas irá marcar a corrida pela reitoria na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) neste mês. A nova administração começa em setembro, e as eleições estão marcadas para 9 e 10 de junho. É a primeira disputa sem candidatura única desde que o atual gestor da UFJF, Henrique Duque, foi eleito pela primeira vez, em 2006. Na reeleição em 2010, o processo eleitoral teve como única inscrita a chapa encabeçada pelo atual reitor. Em 2014, concorrem ao pleito o diretor da Faculdade de Medicina, Júlio Chebli - que conta com o apoio de Duque - , o diretor da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis, Marcus David, e o professor da Faculdade de Engenharia Paulo Villela. Esta semana, os três conversaram em momentos distintos com a Tribuna, respondendo às mesmas perguntas. Um dos poucos pontos de consenso é de que o ciclo de crescimento dos últimos oito anos deve dar lugar a uma gestão que privilegie a organização interna.

 Tribuna - Quais pontos da atual administração o senhor pretende dar continuidade ou estabelecer novas diretrizes? Como define sua candidatura?

Júlio Chebli - Minha candidatura surgiu a partir de sete pré-candidatos que queriam dar continuidade à gestão do professor Henrique Duque, sem fazer continuísmo. Fizemos a opção por um perfil mais acadêmico, todos concordaram, temos a coalizão do grupo. Vamos finalizar todas as obras de infraestrutura, que são fundamentais para que se consiga excelência na graduação, na pós-graduação e na pesquisa. É fundamental que se tenha salas de aula de qualidade, laboratórios, anfiteatros e hospital de qualidade.

Marcus David - É inegável o processo de crescimento pelo qual passou a universidade, mas nós temos um grande desafio. Os processos de crescimento geram problemas administrativos graves. Como profissional da área de administração, comecei a entender, junto com o meu grupo, que a gente tem que oferecer um projeto de reestruturação. A universidade está muito bem para quem olha de longe, não para quem está lá dentro. Ela não tem nenhum contrato de obra com prazo cumprido. Existe atraso de um ano nas obras do Hospital Universitário (HU). O campus de Governador Valadares está parado. E há outros problemas, como atraso de pagamento a profissionais terceirizados e de bolsas, além de problemas no Restaurante Universitário (RU). A comunidade interna sente esses problemas. Não vamos negar: houve avanços. No entanto, a universidade não vai conseguir dar mais nenhum passo sem uma profunda reestruturação. Eu acho que o atual ciclo se esgotou: o modelo da ampliação. Agora é arrumar a casa e implementar um novo modelo.

Paulo Villela - Há uns três meses, tínhamos um certo receio de que haveria uma eleição entre dois candidatos. Isto é muito ruim porque não promove o debate e obriga o eleitor a escolher de uma vez só, sem o segundo turno. A partir do momento em que surgiram duas candidaturas claras, uma de situação e outra de oposição, decidi lançar uma terceira opção, principalmente porque o setor de tecnologia ficou de fora (da área de origem) dos candidatos. É uma candidatura de oposição, porque o que está gritante na administração do professor Henrique Duque é a falta de participação, decisões tomadas de cima para baixo, como a criação do campus de Governador Valadares, cuja justificativa se alicerçava na expansão do número de vagas, sem falar em como criar toda uma infraestrutura necessária. O resultado é um caos instalado nesse campus, com obra atrasada. Minha principal plataforma é, no primeiro dia de minha gestão, convocar um congresso de planejamento.

 

- Qual a visão do senhor sobre pesquisa, ensino e extensão? Em quê a UFJF está bem e em quê precisa avançar?

Júlio - Vamos começar pela graduação, em que não podemos deixar de falar na grande expansão dos últimos oito anos. De nove mil alunos estamos em pouco mais de 20 mil. Ao mesmo tempo, a qualidade também vem melhorando, e nós queremos melhorar ainda mais. A principal função da universidade é formar futuros profissionais. Nós queremos implementar metodologias inovadoras no ensino. Vamos manter bolsas de monitoria, treinamento profissional e iniciação científica. Mais de 50% dos alunos recebem algum tipo de bolsa. Com as cotas, nós temos muitos alunos de nível social menor, que dependem desse apoio financeiro. Nesse contexto, temos que olhar com carinho os cursos noturnos. Quanto à extensão, ela tem papel social importante. Envolve alunos, técnicos e professores em projetos que permitem incluir populações excluídas. É preciso ampliar esses projetos. Quanto à pesquisa, sem dúvida, a UFJF se considera "jovem" neste aspecto, mas nos últimos oito anos, praticamente triplicamos o número de mestrado e doutorado. Hoje, a maioria já tem nota quatro ou cinco, o que é uma nota muito boa para cursos jovens. Como podemos, portanto, estimular mais a pós-graduação? Mais bolsas, criar algum tipo de estímulo a professores e técnicos na pesquisa. Criar laboratórios e dar a estrutura necessária para desenvolver pesquisa. É preciso conectar bem graduação, pesquisa e extensão, o que hoje é um pouco desconectado na UFJF.

Marcus - Ao falar de ensino, vamos separar a graduação da pós-graduação. A graduação tem um desafio que não é apenas da UFJF, mas do sistema de ensino superior brasileiro. Temos de dinamizar o processo de ensino e aprendizado, através da disponibilização e uso de novas tecnologias, de forma a transformar o processo de ensino em algo intenso e motivador para os alunos. O João XXIII tem que ser o nosso campo de formação de licenciaturas, o que não está ocorrendo como poderia, talvez, justamente por falta de coordenação entre o colégio e as diversas licenciaturas que a UFJF oferece. No âmbito da pós-graduação, a UFJF deu uma guinada para o crescimento, e quase todos os cursos, hoje, têm a pós-graduação strictu sensu. Temos de concentrar esforços nelas, dar suporte, de modo que os programas já estabelecidos tenham doutorado, não apenas mestrado. E os que têm os dois têm que dar o salto de excelência, o que inclui desafios de internacionalização, apoio a grupos de pesquisa, disponibilização de bolsas para pesquisadores. A pesquisa está neste contexto. Mas é preciso mais. É preciso mudar a abordagem que têm sido feita ao Parque Tecnológico. Ele não é apenas um campo propício a negócios, mas também um espaço de fomento, de pesquisa de ponta. Além disso, temos de reforçar os projetos e editais de pesquisa junto às agências de fomento. Quanto às atividades extensionistas, a universidade precisa ter bons projetos que trabalhem a cidadania, a inclusão de grupos excluídos. Nosso foco de extensão é na questão social.

Paulo - Hoje a universidade cresceu muito em termos de recursos humanos. É preciso integrar os três grupos, aproveitando esse aumento. Tem vários cursos novos, diversas expansões de vagas, mas há vários problemas que precisam ser equacionados, entre eles a qualidade do ensino, que deve acompanhar o crescimento do número de alunos. Na pesquisa, a UFJF está crescendo, implantando programas de pós-graduação, está bem. É preciso fazer a extensão funcionar, agregar a região à universidade, fazer da UFJF um agente social.

 

- Como o senhor pretende manter a relação com os alunos?

Júlio - O aluno é a razão da universidade. Nós temos de priorizar os alunos, o que vem sendo feito. Em 2013, nós tivemos oito mil alunos atendidos com alguma forma de bolsa. Mais de quatro mil bolsas de assistência estudantil, o que tem que ser mantido e até ampliado. O aluno da UFJF é muito bem tratado na administração atual, porque ele é muito ouvido. Nós não vamos fazer diferente.

Marcus - A reitoria teve muitas dificuldades, nos últimos anos, em estabelecer relações institucionais com as entidades representativas. As relações foram sempre conturbadas. As decisões colegiadas foram ruins. Os três segmentos, alunos, técnicos e professores, perderam representatividade junto à reitoria. Numa situação como essa, essas representações perdem seu canal de comunicação com a administração da universidade. As demandas precisam ser, também, tratadas de forma clara e diferenciada. Aluno representa demanda de política estudantil. Isso tem que ser negociado com ele.

Paulo - Este é um ponto essencial. De todas as candidaturas, a única que partiu de uma experiência de coordenação de curso é a minha. Ela foi muito enriquecedora para mim e me faz perceber que é preciso melhorar a relação com o aluno. Os alunos são mal atendidos no programa de assistência estudantil, corta-se bolsas e envia-se uma mensagem por e-mail, sem dizer o motivo. Isto aconteceu com uma aluna minha. Esta relação precisa ser melhor trabalhada.

 

- E com professores e técnicos?

Júlio - Sem dúvida, os técnicos são a "mola mestra" da universidade. Não existe atividade acadêmica sem apoio técnico. Esses profissionais devem ser ouvidos, estar satisfeitos no trabalho e se qualificarem. Vamos, portanto, manter as bolsas para os técnicos. Quanto aos professores, conheço a dificuldades que eles têm para conseguir financiamento para suas pesquisas e equipamento para o ensino. Queremos criar estímulos para os professores não só na pós-graduação, mas também na graduação. Queremos discutir critérios de avaliação da docência, buscando excelência. Ouvir professores para estabelecer estímulos em graduação, pesquisa e extensão.

Marcus - Uma política importante para os trabalhadores, que era a política de saúde, se transformou em um processo muito complicado porque a reitoria tinha dificuldade em conversar com o Sintufejuf e a Apes, para elaborar conjuntamente a proposta. Se este processo de diálogo tivesse ocorrido por mais tempo, a gente não teria uma transição tão complicada como nós tivemos no plano de saúde.

Paulo - É preciso discutir mais as decisões com os servidores. Houve pouca discussão na definição do plano de saúde. As negociações das categorias precisam ser melhor conduzidas, para não criar qualquer clima de tensão. Não acredito que terei problemas. Sou representante da Faculdade de Engenharia na Associação dos Professores, escolhido por eles, o que mostra como é boa minha relação com os servidores.

 

- E como vai ser a relação com as terceirizadas, que tantos problemas têm suscitado?

Júlio - A universidade hoje depende deles, uma vez que há uma série de cargos que foram extintos pelo Governo federal. O grande problema são as empresas que ganham o processo de licitação e que, depois, descumprem o contrato. A UFJF nunca deixou de pagar as firmas. O problema é ético e moral, não das universidades, mas de uma série de empresas que operam no país.

Marcus - Em alguns segmentos, ela foi feita de forma ruim para a própria instituição. Existem alguns processos de extinção de cargos que geram essa obrigatoriedade da terceirização, só que este processo pode demorar até 30 anos. Se eu fiz um concurso às vésperas da extinção de um cargo, estou com um profissional que vai ficar 30 anos na universidade. Durante um período, tenho uma terceirização parcial. Será que o processo de terceirização da vigilância era necessário? Tem também a questão da gestão do contrato. O Governo federal criou o modelo de "contas vinculadas": uma forma de garantir que uma empresa não se veja tentada a usar os recursos do pagamento contratual sem recolher impostos e pagar funcionários. A UFJF até hoje não implantou o sistema de contas vinculadas, o que permitiria maior controle sobre as terceirizadas. Há também o problema do perfil da licitação dos serviços terceirizados. Não é preciso escolher a empresa com base no menor salário da categoria. É preciso criar um outro padrão em licitação.

Paulo - A gente tem que saber o que terceirizar, o que não está claro, este é um primeiro ponto. Hoje, estamos terceirizando atividades fim, não apenas atividades meio, o que é muito equivocado. Tudo bem que se considere terceirizar algumas atividades meio, porque a demanda de alguns cargos, como cozinheiro, é muito grande e não tem mais como fazer concurso para o cargo, extinto pelo Governo federal. Há também a terceirização feita com alunos, colocando bolsistas para cumprir com as funções de funcionários, sem pagar o salário devido. Ou seja, primeiro a universidade tem que rever o que deve ser terceirizado. Há, por outro lado, um problema de condução. Os contratos estão sendo feitos em cima de parâmetros inadequados para conduzir a atividade.

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