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06 de Julho de 2014 - 06:00

'Não podemos continuar com o Governo fechado em palácios'

Por Hélio Rocha

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"Temos de fortalecer as instituições microrregionais, viabilizar recursos para os município"
"Temos de fortalecer as instituições microrregionais, viabilizar recursos para os município"

Ex-prefeito de Juiz de Fora por três gestões e com longa trajetória no Legislativo federal e estadual, Tarcísio Delgado, 78 anos, chega às eleições de 2014 como nome do PSB ao Governo estadual, afinando seu discurso à mudança proposta pela legenda em todo o país. Devido à sua experiência no Executivo municipal, entra na disputa defendendo a destinação de mais recursos para os municípios. À Tribuna, Tarcísio contou sobre a articulação de sua candidatura, após longo processo de escolha, comentou a vantagem de seus adversários e disse que sente-se jovem para concorrer ao cargo de governador. Ele revela ainda sua intenção de trazer ao seu palanque nomes do PMDB descontentes com o posicionamento estadual e nacional do partido, que opta por apoiar candidatos em detrimento de candidaturas próprias. Ao mesmo tempo, enfrenta a tarefa de conseguir o apoio de nomes socialistas contrários à candidatura própria, entre eles o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda.

 

 

Tribuna - O PSB articulou, desde o fim do ano passado, diversas formas possíveis de participar destas eleições. Cogitou-se apoio ao PSDB, ao PT, candidatura própria com os nomes de Júlio Delgado ou Apolo Heringer. Na reta final desse período, no entanto, o nome do senhor surgiu de forma surpreendente. Como se construiu esta candidatura?

Tarcísio Delgado - A discussão evoluiu para o momento em que todos entenderam que deveria haver candidato próprio. O Eduardo Campos e a Marina Silva me conheciam, e já havia algum tempo que, sem eu saber, cogitavam o meu nome. Fui convidado para conversar com o Eduardo, quando estava em Brasília tratando de um assunto particular. Fizemos reunião no apartamento do meu filho, Júlio, e o Eduardo insistiu muito em que eu carregasse a bandeira do partido. Não sou de dizer não. Sou uma pessoa afirmativa. Um homem do sim. Meu nome surgiu a partir de então e acabou se consolidando. Sempre estive na linha de frente das vanguardas políticas, dediquei o melhor da minha juventude pela luta política maior do nosso país, a saída da ditadura para entrar na democracia. Isso fez com que o Eduardo considerasse o meu perfil ideal para o PSB no momento.

 

Como o senhor vai se posicionar diante da dissidência de quadros do PSB como o prefeito Marcio Lacerda?

O prefeito de Belo Horizonte seria até o candidato natural do partido, mas resolveu não ser para compor com o PSDB. Se a decisão do partido não foi essa, foi pelo candidato próprio, temos aí um antagonismo. Não sabemos qual será a conclusão disso. Ele pode se afastar. O partido pode tomar uma decisão quanto a ele. Este problema, agora, não é meu. Se eu tivesse de dizer algo, faria um apelo a ele para que reavaliasse sua posição, sendo fiel ao partido pelo qual foi eleito. É uma postura que eu historicamente defendi. Apenas isso. Não quero fazer julgamentos.

 

Como está a sua relação com o PMDB local? Diante de sua candidatura, o senhor já conversou com lideranças locais como Julio Gasparette (presidente da Câmara), o prefeito Bruno Siqueira e José Sóter de Figueirôa (secretário de Governo)?

Não. Tenho conversado apenas com os dissidentes. Conversei muito com o João Cézar, que lidera o grupo dissidente. Ele me deu total apoio e disse que participa na campanha. Tenho sido discreto quanto ao PMDB local e o Governo do Bruno, sem criticar, sendo imparcial, às vezes incentivando as pessoas a não reclamar de um Governo que está no início, porque sempre é difícil. Tenho uma certa desilusão com o PMDB, de forma geral, pela forma como ele se deturpou com o tempo, tomado pelo fisiologismo. Me mantenho na posição que me fez sair, de desapontamento.

  

Já foi discutida alguma bandeira para a campanha?

Começamos a conversar e vamos concluir isso esta semana. Há pontos muito claros. A descentralização dos recursos do Governo é importante. Não podemos continuar com o Governo fechado em palácios, completamente fechado ao povo. A história dos palácios fechados ao povo é antiga, desde o Império Romano, e chega uma hora em que o povo vai lá e derruba o palácio. Temos de abrir o Governo, fortalecer as instituições microrregionais, viabilizar recursos para os municípios. Sem grandes obras do estado e mais ação no sentido de apoiar os trabalhos dos municípios. Não sou candidato do tipo "Zé Promessa". Prometo menos e sou bom de execução. Estamos cansados de virem em toda eleição e prometerem levar Minas da terra para o céu' Outra temática muito forte vai ser o problema da exportação do minério de ferro. Todo mundo fala que precisa melhorar saúde e educação, mas como viabilizar os recursos? Esta é uma boa fonte, porque Minas, daqui a pouco, vai ter de mudar de apelido. Ao invés de as "alterosas", as "esburacadas", porque a exploração de minério só deixa buracos e não gera riquezas como poderia. Os royalties são baixos, tem que ter mais controle sobre os tributos sobre a extração de minério. Temos de fazer projetos para trabalhar melhor o valor do nosso minério de fora, agregar mais trabalho e estrutura a esta exploração.

 

E quanto à Zona da Mata? Que investimentos do Governo estadual são hoje mais necessários para a região?

Toda campanha é feita a partir de Belo Horizonte. As propostas devem espargir da capital para o estado. Temos que pensar a Zona da Mata numa visão global de política para o estado. Mas eu conduzi, em 2001 e 2002, o plano estratégico de desenvolvimento da Zona da Mata. Levamos todo o projeto ao Governador na época, o Itamar (Itamar Franco, 1999-2002). Pensamos em que poderíamos avançar, nossas vocações produtivas, tudo comandado por uma equipe técnica experiente. Fizemos reuniões em todos os municípios e produzimos um plano estratégico. O projeto foi arquivado, não sei por que motivo. Eu quero desarquivar e implementar o plano, que é totalmente atual. O eixo central era pela vocação da Zona da Mata para a fruticultura. Pêssego pode ser explorado, uva, várias frutas. Um investimento que ainda não existe, e que o parecer técnico aponta como fundamental, de acordo com o perfil da região. O Governo do estado também pode apoiar a transposição da linha férrea e a ligação para o estado do Rio pelo Sul de Minas, mais curta.

 

Como o senhor se posicionaria num eventual segundo turno, já que há a polarização entre PT-PSDB nas eleições majoritárias. Você teria dito à imprensa que é mais alinhado à presidente Dilma Rousseff.

A declaração quanto à Dilma foi fora de contexto. Não vou dizer uma coisa dessas disputando uma eleição, porque a conjuntura é outra. Quanto a apoio de segundo turno, falarei sobre isso se for ao segundo turno, no momento oportuno. Quem sabe não serei eu a receber os apoios? O partido tem pouca estrutura e pouco dinheiro, o que torna mais difícil uma eventual reviravolta na polarização entre PT e PSDB. Mas temos de perceber que os dois candidatos, somados, têm 45% nas pesquisas. O restante ainda não tem candidato definido.

 

O PSB é um partido em ascensão, que se propõe como alternativa à polarização PT-PSDB. Independente do resultado das eleições, que avaliação o senhor faz da sua candidatura para o crescimento da legenda?

O PSB é evidentemente um partido em expansão. Aumentou muito suas bancadas legislativas e tem muitos prefeitos. É o que está mais próximo de ser, já, a terceira força do estado. Pode ser a primeira em algum tempo. A candidatura é importante. Se o PSB apoiasse outra candidatura, ficaria paralisado, sem condições de mostrar sua cara.

 

O PSB tenta colocar seus candidatos como representantes da mudança na política, associando este perfil a candidatos jovens como Eduardo Campos. Como se colocar como o "novo" após 45 anos de trajetória política?

Algo que, pessoalmente, eu quero fazer, é convidar o eleitor a olhar a minha trajetória. "Olha a minha vida para ver se eu sou vagabundo", vou dizer isso no programa. Tudo que eu fiz na vida eu fiz inovando e renovando. "Sou o candidato mais velho com as propostas mais novas", também vou dizer isso em campanha. A idade deve ser discutida, não tenho problema com isso. Há sujeitos de 80 anos novos, outros de quarenta que são velhos, ultrapassados. Quem botou fogo em Roma foi Nero, que era novo, e quem acabou com a Segunda Guerra Mundial foi Churchill (Winston, então primeiro ministro do Reino Unido), que era velho. Papa João XXIII revolucionou a Igreja aos mais de setenta anos de idade.

 

Qual o papel desta candidatura para a campanha nacional de Eduardo Campos?

É difícil dizer o que isso representará, mas é certo que ele terá um desempenho melhor com a candidatura própria em Minas. Eu já conhecia o Campos, mas lidei pouco com ele antes. Lidei muito com o avô dele (Miguel Arraes), estive com ele quando voltou do exílio e, desde então, tive relação estreita com Arraes, principalmente no período da redemocratização.

 

Marina Silva teve uma votação expressiva em Minas Gerais em 2010, especialmente em Belo Horizonte, onde, no primeiro turno, foi a candidata mais votada à Presidência. O senhor considera que o apoio dela será importante para transferir votos para sua candidatura?

Ela transfere parcialmente. Nem o Lula transferiu todos os votos. A transferência é sempre parcial. O quanto a Marina vai ser importante nós não sabemos mensurar.

 

Assim como o candidato do PSDB ao Governo, Pimenta da Veiga, o senhor passou alguns anos longe dos holofotes da política. O senhor acha que isto pode causar alguma dificuldade na campanha?

Há uma diferença fundamental. Neste tempo, desde que deixei a Prefeitura, eu disputei uma eleição e participei de outra como apoiador da campanha da Margarida (Salomão, deputada federal do PT e candidata a prefeita em 2012). Estive o tempo todo em Minas Gerais, morando em Juiz de Fora e participando na política. O Pimenta morava em Brasília há mais de vinte anos. Não sei quando ele esteve em Minas pela última vez. Talvez não tenha vindo nem a passeio. Eu estava aqui, militando, fui candidato, fiz campanha. Participei na campanha do Hélio Costa (PMDB) ao Governo. É uma incógnita por que o Aécio trouxe o Pimenta para concorrer ao Governo.

 

Como vai ter de lidar com montante financeiro e tempo de TV mais limitado que o de seus principais concorrentes?

Certamente o orçamento vai ser menor, mas sempre lidei com isso, sou de gastar pouco dinheiro em campanha. Foi assim nas minhas campanhas à Prefeitura. A estratégia é gastar com austeridade, fazer valer o pouco tempo de TV. Ele é pequeno, menor um pouco do que eu desejaria. Mas também eu não queria tempo demais, para falar "abobrinha" na televisão. O ideal é entre quatro e seis minutos, divididos entre os dois programas do dia, para passar uma mensagem direta, curta, grossa e simples. Devo ter cinco minutos para dois programas de dois minutos e meio. Isto ainda está sendo definido, conforme a coligação. Além disso, haverá as inserções isoladas, que são fundamentais na eleição.

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