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01 de Janeiro de 2014 - 07:00

'Há um esgotamento de um ciclo de poder'

Por HÉLIO ROCHA

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O professor Vladimir Safatle é docente na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), mantendo pesquisas em filosofia, teoria social e psicanálise. Questões pertinentes à política partidária, democracia e estruturas de poder são temas frequentemente debatidos por Vladimir, autor do livro "A esquerda que não teme dizer seu nome". Na publicação, ele discute a reforma dos princípios que orientam historicamente o pensamento da esquerda na política, que, segundo seu argumento, deve voltar a contemplar "a defesa radical do igualitarismo, da soberania popular e do direito à resistência". Ele também conversou com a Tribuna e opinou sobre o atual momento da política brasileira.

Tribuna - Como o senhor avalia o atual momento político do Brasil?

Vladimir Safatle - Um momento de vazio político muito forte. Há o esgotamento de um ciclo de poder, que é este do "lulismo" ou do "petismo", sem que haja uma proposta que seja, de fato, uma alternativa. Quando, no início dos anos 2000, tivemos o esgotamento do ciclo neoliberal dos anos 90, o "lulismo" se apresentou como um substituto. Agora não há esta alternativa.

- E qual a sua percepção das manifestações que tomaram o Brasil este ano?

- Ela se relaciona, justamente, com este esgotamento dos ciclos de poder . O "lulismo" não dá mais conta de preencher esta lacuna do vazio político, o que levou as pessoas às ruas por algo novo. Mas ainda não há, a meu ver, um ciclo substituto.

- O senhor sempre aborda o conceito de multiculturalismo em suas palestras. Como aplicá-lo nos dias de hoje?

- Não é seguro afirmar que o combate à desigualdade econômica ponha fim às injustiças culturais, que ainda atingem mulheres, homossexuais e negros, por exemplo. Há, por exemplo, a história do banqueiro de pele negra que, ao desembarcar em Nova Iorque, foi tratado com preconceito, porque a cor de sua pele diz mais para as pessoas que sua posição social. Nossa sociedade é, portanto, tomada por culturas defensivas que operam por exclusão, sempre se definem sob tensão. "Eu vejo o outro a partir da diferença dele em relação à minha identidade". Forma-se então um campo de diferenças "toleráveis". Até que ponto, portanto, podemos suportar uma diferença? Quais são toleráveis?

- Como o senhor avalia a relação entre essas diferenças culturais e a política?

- O que verificamos hoje, a partir da constatação do lugar que as diferenças culturais ocupam no imaginário da sociedade, é que houve, historicamente, uma politização extrema do campo da cultura. Talvez o problema não seja a relação entre a cultura e a identidade, mas entre a política e a cultura. A solução seria o distanciamento entre política e cultura. A criação de zonas de indiferença cultural. A respeito de temas polêmicos, como o casamento de homossexuais, melhor que o Estado querer legislar sobre a aceitação de formas de afeto, é o Estado se limitar a reger as relações econômicas decorrentes das mesmas. Quanto ao porte de signos religiosos, outro tema que causa discussão, o Estado deve garantir o direito à liberdade de não portar quaisquer signos, mas não legislar sobre se é ou não permitir portá-los. A política, em suma, deve ser indiferente à afirmação das identidades.

- Mas como separar política e identidades, se é por meio da política que as identidades se constroem?

- No contexto de contradições das sociedades multiculturais, a ideia de distanciamento não ganha uma função de exclusão das identidades de minorias, que se construíram pela política. Sim, por meio da política deu-se visibilidade a grupos vulneráveis. Entretanto, há uma certa dinâmica de vulnerabilidade, das identidades minoritárias, inerente a este modelo que aí está, em que a dimensão das diferenças culturais colonizou o campo político. Neste modelo, as diferenças operam sob tensão.

- Esta ideia de distanciamento não subtrai a importância do encontro entre as culturas? Não cria um modelo em que se "vira as costas" às diferenças?

- Há formas de indiferença. Uma delas é aquela em que "sou indiferente ao outro", como um desligamento. A outra é aquela em que "não dou importância às diferenças". É desta última que estou tratando, principalmente na potência política dessa ideia.

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