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27 de Abril de 2014 - 06:00

Apesar de recorrentes no Brasil, casos de corrupção política são mais explorados em ano eleitoral e podem influenciar na hora do voto

Por HÉLIO ROCHA E RENATO SALLES

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Raul Magalhães, cientista político
Raul Magalhães, cientista político
Rubem Barboza, cientista político
Rubem Barboza, cientista político
Paulo Roberto Figueira Leal, cientista político
Paulo Roberto Figueira Leal, cientista político

A definição das principais candidaturas à Presidência e ao Governo de Minas já deu o sinal verde para o início da campanha eleitoral, a despeito do calendário da Justiça Eleitoral que prevê o dia 6 de julho como prazo inicial para que coligações e postulantes possam realizar propaganda visando a conquistar o eleitorado de olho no pleito de outubro. No país que ocupa a 72ª colocação no ranking dos considerados mais limpos ou livres da corrupção - bem abaixo de vizinhos como Uruguai (19ª posição) e Chile (22ª) -, os recorrentes escândalos ligados aos ocupantes de cargos públicos prometem ser munições para ataques mútuos entre aqueles que pretendem os executivos nacional e estaduais. A discussão ultrapassa as fronteiras eleitorais e ecoa até mesmo nos legislativos municipais, como aconteceu em Juiz de Fora no mês passado, quando o vereador Cido Reis (PPS) propôs uma moção de repúdio contra a presidente Dilma Rousseff (PT) por conta da polêmica envolvendo a compra da refinaria de petróleo em Pasadena, nos Estados Unidos. Sem ter nenhum poder de deliberação, a Câmara foi tomada por uma discussão ferrenha entre os representantes de partidos de situação e oposição ao Governo federal, em uma disputa onde o contexto eleitoral podia ser visto além das entrelinhas.

 

'Telhado de vidro'

Cada vez mais comuns na terra de mensalões nacional ou estaduais, os escândalos políticos mostram que, mesmo antagônicos do ponto de vista eleitoral, os principais grupos políticos do país possuem "telhados de vidro". Ao avaliarem o surgimento de casos de corrupção, cientistas políticos ligados à Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) entendem que este não é um fenômeno típico de ano eleitoral, mas uma constante em um país que tem histórico de abusos administrativos. "Os escândalos estão sempre aí, são constantes no Brasil. O que há, nos anos de eleições, é mais preocupação dos políticos com os efeitos que esses escândalos podem produzir", explica o cientista político Raul Magalhães. Também cientista político, Rubem Barboza segue linha de raciocínio semelhante. "Não tenho dados que sustentem essa possibilidade (de aumento do número denúncias contra políticos em ano de eleição). O que há, certamente, é a discussão da corrupção no período eleitoral, mas muitos escândalos que vêm à tona são antigos, caso dos mensalões nacional e mineiro."

Para os especialistas, a utilização de denúncias como ferramenta de agressão a adversários nas urnas depende de algumas variáveis como conjuntura econômica, cobertura da imprensa e até mesmo o cargo público ocupado pelo suspeito de lesar o patrimônio público. Cada caso é um caso, com pesos eleitorais distintos. Exemplos recentes não faltam. Em 2002, a então pré-candidata à Presidência Roseana Sarney (DEM) despencou nas intenções de voto após a Polícia Federal (PF) revelar supostos esquemas de corrupção envolvendo o Governo do Maranhão, chefiado por Roseana, e a empresa de seu marido, enquanto que, em 2010, a então candidata e atual presidente, Dilma Rousseff (PT), sobreviveu às denúncias de tráfico de influência envolvendo sua secretária-executiva, Erenice Guerra.

 

A opinião do eleitor é sempre volátil

Os cientistas políticos entendem que a forma como denúncias de corrupção afetam o cenário eleitoral é variável, difícil de mensurar. Para Raul, a opinião do eleitor é sempre volátil, o que permite que diversos fatores determinem o resultado de uma eleição, a despeito de um escândalo apontando um ou mais nomes envolvidos no pleito. "Quando um político está no cargo, concorrendo à reeleição, e enfrenta um escândalo de corrupção, por exemplo, a situação é mais grave. Há toda a exposição na mídia, por ser o ocupante de um cargo público." Além desse fator, também são citados pelos especialistas, ao determinar o voto do eleitor, questões econômicas e de bem-estar social, além da credibilidade do grupo ou entidade de que parte a denúncia. "Quando ela provém do Ministério Público (MP) ou da Polícia Federal, tem um peso. Quando surge repentinamente na mídia ou levantada por algum adversário político do 'denunciado', tem outro. Na verdade, quando a denúncia é inócua, ela se mistura a outras tantas, contribuindo para minar a confiança do eleitor no próprio sistema representativo, o que é ruim para todos os candidatos", analisa Rubem.

 

Mídia

O cientista político Paulo Roberto Figueira Leal considera que possíveis prejuízos eleitorais alimentados pelo crescimento de uma denúncia de corrupção estão relacionados à disposição da mídia em acompanhar o caso, conferindo ao mesmo maior ou menos visibilidade. "A imprensa é mais silenciosa em alguns casos, mais estridente em outros, e isto é um fator preponderante ao determinar as consequências eleitorais de um escândalo de corrupção. Ainda assim, há outras variáveis. A mídia foi muito mais estridente no mensalão, no primeiro Governo Lula (2003-2006) do que nos escândalos envolvendo as privatizações do primeiro Governo Fernando Henrique Cardoso (FHC, 1995-1998). No entanto, ambos se reelegeram."

 

 

Impacto nas pesquisas de opinião pública

Uma derivação do poder das denúncias de corrupção na configuração do cenário eleitoral está no papel dos institutos de pesquisa, que registram as intenções de voto do eleitorado nos meses que antecedem o pleito e, desta forma, permitem averiguar o quanto a imagem do candidato está ou não comprometida diante do eleitor. Desta forma, ao apontar o recuo da confiança do cidadão no nome envolvido em escândalos, a pesquisa eleitoral pode ajudar a reforçar a perda de espaço de determinado candidato.

Por outro lado, o cientista político da UFJF Paulo Roberto Figueira Leal alerta que as próprias pesquisas podem ser encomendadas, em determinado momento e seguindo uma certa abordagem, para produzir efeito político. "As pesquisas são uma ferramenta do jogo político na medida em que produzem efeitos na corrida para os cargos públicos. Não apenas no eleitorado, mas quanto a alianças entre forças políticas e financiamento de campanha, questões que são decididas levando em consideração as intenções de voto."

 

Institutos mais conhecidos

Para Rubem Barboza, os institutos de pesquisa mais conhecidos têm seus resultados respeitados por quase todas as forças do cenário eleitoral. "Usam metodologias claras, que permitem às pessoas entender os recortes e mensurar o quanto a pesquisa traduz a realidade das intenções de voto."

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