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02 de Março de 2014 - 06:00

Apesar do crescimento na procura pelo título de eleitor, TRE e especialistas evitam associar aumento às manifestações de 2013

Por HÉLIO ROCHA

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Para Gilter, a maior movimento deve-se à necessidade de cumprir obrigações legais
Para Gilter, a maior movimento deve-se à necessidade de cumprir obrigações legais

Em 2014, 4.193 pessoas já procuraram o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) para fazer o alistamento eleitoral, pedir segunda via do título de eleitor, rever dados do registro ou transferir o domicílio. O número é, segundo estimativa do Tribunal, 20% maior do que nos demais anos eleitorais, em que já são, convencionalmente, registrados mais atendimentos do que nos anos em que não há eleições. A procura por novos títulos de eleitor é a principal demanda. Entre os jovens o título é visto como oportunidade de exercer a cidadania ou também serve para outros fins, como prestar concursos públicos ou matricular em escolas de ensino superior. A data limite para retirada ou mudança no título é 7 de maio e, até lá, os atendimentos são realizados de segunda a sexta-feira - exceto feriados - das 12h às 18h. O novo eleitor deve levar ao TRE o documento de identidade e o comprovante de residência, acompanhado do certificado de alistamento militar, caso seja maior de 18 anos.

Quanto ao perfil destes novos eleitores, que chegam às eleições de 2014 após um 2013 em que milhares de jovens foram às ruas por menos corrupção e melhores serviços públicos, sabe-se que ele é difuso. Tanto de acordo com o TSE quanto segundo especialistas, ainda é impossível conjecturar se o envolvimento da juventude com a política, visto no ano passado, terá efeitos nos novos participantes do processo eleitoral, visto que não há dados que apontem para qualquer mudança. Contudo, entre os adolescentes entrevistados pela Tribuna na última semana, é recorrente a opinião de que, desde os protestos de junho e julho, amadureceu entre os jovens o desejo de ajudar a escolher representantes para a sociedade.

 

De olho

Um dos eleitores que vai votar pela primeira vez este ano é Dalton Rodrigues, 17 anos. Ele afirma que há bastante tempo já se interessa por política, por isso vai participar das eleições de forma facultativa, ou seja, mesmo tendo idade para optar por não votar. No Brasil, dispõem do voto facultativo cidadãos com idade entre 16 e 18 anos, além daqueles com mais de 70. "Sempre me interessei por isso. Organizo as eleições simuladas na minha escola, procuro discutir temas importantes com meus amigos. Por isso tomei a decisão de participar." Dalton ainda não tem o título de eleitor, mas pretende ir ao cartório o quanto antes para obtê-lo. Ele imagina que, após os dias agitados vividos na política em 2013, muita coisa pode mudar no perfil dos representantes. "O pessoal está de olho, espera mudanças neste ano. A juventude está mais informada, tem mais conhecimentos."

Mesmo caso é o de Thiago Reis, 17, que diz que, dado o equilíbrio de forças entre as diversas correntes e ideologias políticas, latentes desde as manifestações de junho e julho, sente a sua contribuição no processo eleitoral ser cada vez mais importante. "Desde pequeno tenho essa vontade de participar. Ia com meu pai, vê-lo votar, quando era criança. É uma maneira de decidirmos um pouco do que vai ser o nosso futuro", explica o adolescente. Quanto aos protestos, ele acredita que foi um momento de engrandecimento para aqueles que compareceram focados em cobrar ações do Poder Público por menos corrupção e melhores serviços públicos. "Foi bom para quem 'estava lá de verdade'. Digo desta forma porque muita gente participou por participar. É o que eu penso. Mas, ainda sim, acredito em mudanças."

Já a estudante Ana Paula Taroco, 18, participa este ano já com voto obrigatório e no ano passado, a partir das manifestações, tomou o primeiro contato com o modelo representativo brasileiro. Para ela, o 2013 de protestos incentivou os jovens a participarem da política, o que motiva muitas pessoas a buscarem um título de eleitor. "Começou com as manifestações. Nós tivemos a oportunidade de fazer o que gostamos, estar com os amigos. Desta vez, porém, isto veio em conjunto com a luta pelos direitos." Desde então, explica a jovem, a postura dela e de muitos amigos foi diferente, principalmente no colégio, onde um trabalho apresentado por colegas detalhou o sistema eleitoral, partidário e representativo do Brasil. "Rompeu a inércia de muita gente. Hoje, a gente está motivado a participar da política cobrando dos políticos, porque uma conduta correta não é virtude, é dever. Ainda acredito em muitos deles e acho que a corrupção é uma exceção, que ganha destaque porque prejudica a sociedade."

Apesar disso, o diretor do cartório eleitoral do TRE em Juiz de Fora, Gilter André da Silva, tem o pé atrás quanto a creditar o aumento da procura pelo cartório à politização da faixa etária entre 16 e 18 anos. Segundo Gilter, o principal motivador da procura ainda é a necessidade que os jovens têm de, a partir de 18 anos, obter o título para conseguir outros documentos. "Hoje é uma documentação obrigatória para prestar concursos ou matricular na universidade, por exemplo. Isso explica a maior procura por parte de pessoas nesta idade." Este é o caso do estudante Raphael Motta, 16, que afirma interessar-se pelas eleições, mas estar preocupado em ter o título de eleitor para já antecipar a documentação necessária para o alistamento militar e a matrícula na faculdade. "As obrigações cívicas são o meu principal motivo. Mas defendo que todo mundo participe, por isso antecipei. É sempre bom tentar mudar as coisas no país."

 

Diagnóstico é prematuro

Apesar da afirmação dos jovens, o cientista político da UFJF Paulo Roberto Figueira Leal afirma que não dá para atestar, sem o levantamento de dados específicos, o possível entusiasmo dos jovens com a política. Ele sustenta que, se for extraída, no âmbito das manifestações do ano passado, uma amostra do interesse pela política na faixa etária entre 16 e 18 anos, é possível que ela registre o contrário. "Os protestos mostraram justamente a indignação da juventude com o modelo de representatividade que nós temos, que não foi alterado de lá para cá. Nesse contexto, o que se pode esperar é um aumento dos votos brancos e nulos. Mas não dá para afirmar. Fica tudo no campo da especulação."

Já para o sociólogo Eduardo Magrone, também da UFJF, o desinteresse pela política representativa não implica desencanto com temas pertinentes à mesma. O desejo de melhorias nos serviços públicos resvala, de acordo com Magrone, no interesse pela política, o que não necessariamente conduz o jovem ao diálogo com os representantes. "Há uma tendência perceptível de um renovado interesse por temas políticos tais como corrupção, gastos públicos, políticas de transferência de renda, democratização do acesso ao ensino superior ou violência urbana." Por outro lado, segundo o professor, é decepcionante a forma como grupos politicamente organizados se estruturam de forma a acentuar o pertencimento da juventude a ideologias partidárias. "Eles simplesmente parecem não conseguir atrair uma participação mais expressiva de jovens interessados por temas políticos."

Magrone lembra que a preocupação inicial dos jovens com temas pertinentes à política pode se dispersar, dada a forma como funcionam os poderes no país. "Vejo os processos eleitorais no Brasil como muito pouco atrativos para os jovens. São pleitos milionários, totalmente colonizados por marqueteiros e há também uma mesmice de candidatos, partidos e programas." Ele pensa que a participação mais ativa e consciente de parcelas da juventude irá depender muito do que irá acontecer nos meses que antecedem as eleições. "O sentimento de mudança que apareceu claramente nas manifestações de junho do ano passado ainda é muito forte, mas há toda uma legislação eleitoral e um modus operandi da classe política brasileira que conspira contra as possibilidades de mudança. Isto poderá afastar a maioria dos jovens das eleições."

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