A disposição revelada de tucanos e petistas de reeditarem o segundo turno de 2008, com o prefeito Custódio Mattos (PSDB) e a ex-reitora da UFJF, Margarida Salomão (PT), disputando mais uma vez a Prefeitura de Juiz de Fora, tem forçado os concorrentes à terceira via no processo sucessório a rever suas pretensões. Com discurso de novidade e propósito de romper a polarização PSDB e PT no município, o deputado federal Júlio Delgado (PSB) e o deputado estadual Bruno Siqueira (PMDB), ambos pré-candidatos a prefeito, sinalizaram, na última semana, uma aproximação. As conversas ainda estão em fase inicial, mas partem do pressuposto que, caso as candidaturas de ambos sejam mantidas, a possibilidade de haver uma dispersão de votos em seus redutos ou mesmo em todo um segmento do eleitorado afeito à necessidade de renovação pode terminar por inviabilizá-los. "Corremos o risco de ficarmos disputando na parte de baixo, facilitando as coisas para PT e PSDB", avalia Júlio.
Bruno concorda com a necessidade de diálogo, mas prefere não condicionar o sucesso ou fracasso de uma eventual candidatura a qualquer aliança. "Vamos conversar e buscar o entendimento. Agora, nada impede que os dois partidos tenham candidaturas separadas." Para ele, a postura do PMDB em relação à necessidade de candidatura própria acaba tendo um peso maior nas articulações. "A direção estadual do PMDB deixou bem claro o propósito de ter candidatos em todos os maiores municípios. Em Juiz de Fora, segundo o presidente (deputado federal) Antônio Andrade, estamos em condições de disputar para vencer." Júlio, por sua vez, garante saber das pretensões do PMDB, mas lembra que é preciso se ater também à questão da viabilidade eleitoral. "É necessário considerar também o peso de cada candidatura e o que cada candidatura representa."
Não apenas a provável divisão do eleitorado deixa em alerta os dois pré-candidatos, mas também a hipótese de racha no PMDB. O partido, que esteve à frente do município por 14 anos e nas últimas duas eleições foi relegado à terceira força política local, ainda não afinou o discurso para a sucessão municipal desde ano. Diferentemente de PSDB e PT, que caminham com candidaturas consolidadas, os peemedebistas, mesmo empenhados na elaboração de um programa de governo, seguem sem unidade em torno de um nome. Bruno, mesmo com o apoio da maior parte dos correligionários locais e com respaldo irrestrito do PMDB de Minas, é observado a distância pela ala ligada ao ex-prefeito Tarcísio Delgado, fundador e um dos principais caciques do PMDB. Haja vista sua trajetória na legenda, Tarcísio, além de pai, é considerado o principal fiador de uma eventual candidatura de Júlio à Prefeitura. Caso faça a opção afetiva e Bruno permaneça no páreo, o PMDB sairá dividido.
Em seu blog na internet, o ex-prefeito afirmou que definições, pelo menos de sua parte, devem se dar apenas em maio, um mês antes das convenções. "Penso que conversas mais conclusivas só depois da Semana Santa, a partir de maio." Embora não tenha feito nenhum sinalização, a não ser confirmar sua condição de não candidato, revelou que vem sendo "intensamente procurado por possíveis candidatos para conversas eleitorais". Essas conversas envolvem, além de Bruno Siqueira e Júlio Delgado, interlocutores do PT.
Mesmo tendo opções de candidatura em casa e no PMDB, Tarcísio é visto pelos petistas como um bom articulador para a indigesta missão de conduzir Júlio e todos peemedebistas para figurarem como coadjuvantes na chapa encabeçada por Margarida Salomão. A estratégia, ainda que criada e incentivada por cardeais de PT, PMDB e PSB em Brasília, é vista com pouca chance de prosperar.
No próprio PT, há quem considere desnecessária a interferência da cúpula nacional no jogo sucessório municipal. A lembrança do segundo turno de 2004, quando o partido local foi forçado a engolir Alberto Bejani (PSL) na disputa com Custódio Mattos (PSDB), ainda incomoda. Entre os peemedebistas, mesmo aqueles ligados a Tarcísio, a aliança com o PT é vista com desconfiança, muito em função dos desentendimentos na curta parceria das duas siglas no segundo turno de 2008. Isso sem contar com o fato de o PMDB ter que abdicar da candidatura própria ao Executivo, cuja necessidade figura nos discursos de todos dirigentes da legenda há pelo menos uma década.
O problema com o PSB é a forte ligação do partido em Minas com o senador Aécio Neves (PSDB). Com isso, a equação a ser resolvida pelo ex-prefeito volta para as candidaturas de Júlio e Bruno. Como os dois iniciaram um processo de diálogo, pelo menos por ora, a ordem é para aguardar por desdobramentos. Interlocutores dos dois pré-candidatos até apostam na unidade, mas apenas nos 45 minutos do segundo tempo. Certo é que as pesquisas eleitorais serão determinantes.
Partidos refazem cálculos após Lei da Ficha Limpa
Enquanto aguardam a definição envolvendo Bruno Siqueira e Júlio Delgado, dirigentes partidários aproveitam para refazer os cálculos eleitorais em função da validação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) da Lei da Ficha Limpa. A norma veta a candidatura de políticos com condenação em instâncias colegiadas e que tenham renunciado para escapar de processo de cassação. Em Juiz de Fora, o ex-prefeito Alberto Bejani (PSL) enquadraria-se no último caso, embora tenha argumentado em contrário. Ele garante que não é atingido pela lei e vai recorrer em todas as esferas do Judiciário para tentar resguardar seus direitos políticos. Mesmo com toda sua disposição de tentar entrar na disputa pela Prefeitura, Bejani, na avaliação de dirigentes dos principais partidos do município, ficará fora do páreo. O entendimento unânime é de que, mesmo ancorado em liminares, seu registro de candidatura, caso seja requerido, não proliferará. A certeza é tanta que as futuras pesquisas de todas legendas com pré-candidatos sairão a campo sem menção ao ex-prefeito.
A questão a ser respondida envolve saber para onde vai o eleitor bejanista. Embora a certeza de pulverização em torno das demais candidaturas, dirigentes de PT, PMDB e PSB apostam em ficar com a maior fatia de votos pelo fato de serem, assim como Bejani, opositores ao Governo Custódio Mattos (PSDB). Os governistas, no entanto, veem o perfil desse eleitorado como mais suscetível a ações da máquina administrativa. "Vai depender de asfalto, Bolsa Família e outros benefícios", observa um dirigente de um partido da base com representação na Câmara Municipal. Nesse sentido, a capitalização dos redutos considerados bejanistas entrou na agenda do PSDB. O problema é saber dosar as investidas, para escapar do rótulo de "candidato do Bejani." Quanto ao segmento evangélico, que vinha sendo trabalhado pelo ex-prefeito, os tucanos consideram a aproximação mais fácil e segura. O risco, nesse caso, seria a concorrência de Bruno, que também tem tentado ampliar o diálogo com os pastores.
Além dos novos cálculos eleitorais, a possível saída de Bejani do páreo começa a mudar também as estratégias de discurso para a campanha. O risco da questão ética dominar as discussões deixa de existir. Com isso, as atenções voltam-se para os problemas do município. Também nesse caso, as pesquisas devem exercer papel determinante. Dirigentes e correligionários mais próximos atestam ainda certo alívio dos pré-candidatos em relação à hipótese de o ex-prefeito não conseguir registro de candidatura por conta do folclore envolvendo suas participações em disputas eleitorais. Por outro lado, paira sobre todos algum tipo de receio em relação a possíveis investidas de Bejani na condição de cabo eleitoral, caso não consiga manter-se como concorrente. O próprio ex-prefeito, antes mesmo da validação da Lei da Ficha Limpa, havia deixado claro o propósito de participar do processo sucessório deste ano ainda que na condição de apoiador.



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