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27 de Junho de 2014 - 06:00

Por Tribuna

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Os documentos relativos ao período da ditadura militar pertencentes à Polícia Federal (PF) não foram encontrados em Juiz de Fora. A informação foi divulgada nesta quinta-feira (26) durante a primeira reunião pública realizada pela Comissão Municipal da Verdade (CMV-JF), ocorrida no anfiteatro da Funalfa, que apresentou o balanço parcial dos trabalhos realizados nos últimos três meses. Até agora, o grupo tem à sua disposição os arquivos da Auditoria Militar e da Penitenciária José Edson Cavalieri, a Penitenciária de Linhares. Com a exceção dos documentos da PF, os demais já foram cedidos para consulta e cópias.

O delegado da PF, Cláudio Dornelas, assegurou que os arquivos sobre a ditadura não estão em poder do órgão em Juiz de Fora. A presidente da comissão, Cristina Guerra, afirma que, provavelmente, os documentos foram enviados para Belo Horizonte, e que, por isso, o órgão protocolou ofício junto à PF da capital, pedindo informações sobre o paradeiro dos documentos. Segundo a presidente, o pedido está sendo acompanhado pela comissão e pela delegacia. Dornelas, no entanto, afirma desconhecer o paradeiro do material. "Se ele existiu, não está mais na delegacia. Assumi meu cargo décadas depois do regime militar e não sei onde esse material pode estar."

Para a elaboração do seu relatório, a comissão conta até agora com 19 depoimentos de pessoas que tiveram seus direitos violados em Juiz de Fora. Desse total, 15 foram levantados pelo Comitê da Verdade de Juiz de Fora, órgão que antecedeu a CMV-JF, e enviados à Comissão Nacional da Verdade (CNV). Os outros quatro relatos foram repassados pelo "Projeto marcas da memória - história oral da anistia do Brasil", realizado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. A comissão também aguarda o relato de outras dez pessoas.

 

Comissão contará com apoio da universidade

Todo o trabalho de pesquisa contará com o apoio de dez docentes e 20 bolsistas da UFJF. A oficialização do convênio entre a CMV-JF e universidade foi oficializada nesta quinta-feira (26). Participarão do projeto de extensão multidisciplinar representantes dos cursos de comunicação social, direito, ciências sociais e história. O documento foi assinado por Cristina Guerra e pelo pró-reitor de Extensão da UFJF, Marcelo Dulci. Serão desenvolvidas várias frentes de trabalho, como pesquisa em arquivos e documentos históricos, coleta, transcrição e análise de depoimentos. Segundo o relator da comissão, o vereador Roberto Cupolillo (Betão-PT), desde que os trabalhos tiveram início, em abril deste ano, foram realizadas 11 reuniões ordinárias e diversas extraordinárias, também foram feitas visitas à PF, à Auditoria Militar e à penitenciária.

Ainda nesta quinta-feira (26) a comissão divulgou canais de comunicação para estreitar o contato com a população (ver quadro). Por meio da internet e do telefone, o grupo acredita que será possível encontrar novos relatos, além de abrir espaço para sugestões e críticas aos trabalhos. Cristina Guerra destacou que o objetivo da CMV-JF é promover a reconciliação de Juiz de Fora com o seu passado, reparando as injustiças de modo que as mesmas não sejam cometidas outra vez. "Sabemos que a tortura é crime, mas ela continua existindo em nosso país. Este trabalho sinaliza uma nova fase para a cidade, mas, para isso, a campanha precisa acontecer de forma contínua, incentivando uma mudança de postura e transparência."

O vice-presidente da comissão e também secretário de Desenvolvimento Social, Flávio Cheker, disse que JF não pode ficar conhecida apenas por ser a cidade de onde partiram as tropas do general Olympio Mourão Filho e onde aconteceram prisões e torturas. Deve ser aquela que conseguiu virar a página a partir do resgate da memória e da Justiça. "Entendemos que a vivência destes fatos culminou em dramas pessoais. De fato, não gostaríamos de tocar nestas feridas, mas, por outro lado, isso é importante para que possamos reparar estas vítimas."

Durante a solenidade, três pessoas que lutaram contra a repressão durante o período da ditadura foram homenageadas. Entre elas, o ex-sindicalista e ex-deputado estadual juiz-forano Clodesmidt Riani, que entregou à comissão documentos, fotografias e jornais da época. O advogado Winston Jones Paiva, que defendeu mais de cem presos políticos, e o escritor Betinho Duarte, membro da Comissão Estadual da Verdade. Em seu discurso, Betinho lançou um desafio à cidade para que seja instituída uma lei que permita a mudança de nomes em ruas e em prédios públicos em referência aos presidentes pertencentes ao regime militar. Também defendeu o tombamento da Penitenciária de Linhares.

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