Publicidade

01 de Janeiro de 2014 - 07:00

Copa e eleições presidenciais também deve mobilizar lideranças das organizações de esquerda e dos movimentos descentralizados

Por HÉLIO ROCHA

Compartilhar
 
Diferente de junho do ano passado, protestos de  2014 devem ser contaminados por disputa eleitoral
Diferente de junho do ano passado, protestos de 2014 devem ser contaminados por disputa eleitoral

Se, no ano passado, a Copa das Confederações e os aumentos no preço das tarifas do transporte público, em cidades como São Paulo e Porto Alegre, fizeram com que jovens mobilizassem protestos em todo o Brasil, este ano a Copa do Mundo e mais uma eleição presidencial podem, novamente, suscitar inquietação popular. Ausente dos protestos de junho e julho, mas suscitada após posicionamento de diversas lideranças políticas, a reforma política também pode ser uma das bandeiras presentes neste ano eleitoral. No entanto, algo mais será diferente. Enquanto, em junho do ano passado, os protestos surgiram de forma espontânea, resultado de mobilizações independentes que tiveram nas redes sociais o seu principal desencadeador, este ano, diversos grupos organizados devem se articular para não apenas estar presentes às ruas, mas também participar, com cada vez mais, do tabuleiro do jogo político. Haverá uma nova relação de forças entre os tradicionais grupos sindicais e de esquerda e os movimentos de organização horizontal e descentralizada.

Em Juiz de Fora, estas diversas entidades participam da chamada "Frente de lutas", que reúne, entre outras organizações, o movimento "Junta Brasil", o grupo "Fora do eixo", movimentos independentes como o "Marcha da maconha", além de entidades históricas como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Central Sindical e Popular (CSP-Conlutas) e o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFJF. Oficialmente representados ou atuando em colaboração com a 'Frente de lutas', estes grupos, neste primeiro mês de 2014, já têm pautas definidas e projetam sua atuação política durante o ano, o que deve contemplar a luta contra aumento no preço do transporte público, o apoio à Comissão da Verdade para apuração dos crimes cometidos pelo Estado durante o regime militar, além da defesa de uma Assembleia Constituinte para realização da reforma política.

 

Sem resposta

Representando o grupo "Fora do eixo", a arquiteta urbanista Mariana Rebelatto afirma que poucas reivindicações de 2013 foram atendidas pelo poder público, o que faz com o que grupo mantenha sua atuação por democratização das informações e por uma revisão no planejamento urbano. "Quando analisamos as cidades, percebemos o caos latente. Constantes alagamentos, aumento da criminalidade, engarrafamentos, entre outras questões. São sintomas da falência desta forma de organização do espaço urbano, baseado na especulação imobiliária. Neste sentido, seguimos trabalhando as pautas com que nos alinhamos nos últimos anos e lutando por uma ampliação cada vez maior dos mecanismos de participação popular."

No que tange à maior representação da população na política, uma causa que une tais organizações é a luta pela Assembleia Constituinte. Segundo Mariana, "os movimentos sociais de todo Brasil estão organizando um plebiscito popular sobre a reforma política, a partir do fortalecimento da unidade da esquerda, um dos frutos de junho". A posição da representante do "Fora do eixo" é a mesma do líder do movimento "Marcha da maconha", Álvaro Lobo. "A inquietação não vai parar enquanto o sistema político funcionar da mesma forma corrupta. A reforma, que é uma saída, ainda não deixou o papel". O mesmo afirma o sindicalista Oleg Abramov, diretor regional da CUT, para quem tal bandeira unificou o que antes eram pautas diversificadas. "O movimento horizontal, cedo ou tarde, 'sobe o morro' e tem de ter uma pauta clara. A Constituinte é uma delas."

 

 

Grupos esperam mais repressão e respostas vazias

Se a iminência das eleições pode fortalecer determinadas demandas, por outro lado, diversas lideranças esperam mais repressão e respostas vazias por parte dos políticos. Para Victoria Mello, representante da CSP-Conlutas, dois caminhos serão percorridos pela "Frente de lutas" para fortalecer a democracia e evitar a repressão: reforçar atividades durante a Copa e, antes disso, lembrar os 50 anos do Golpe Militar de 64. "Será um ano inteiro de atividades, em que primeiro lembraremos os 50 anos do golpe, que instaurou a ditadura militar no Brasil. Uma lembrança que reforça a importância da nossa liberdade e da nossa democracia. Depois, nos mobilizaremos durante a Copa."

Oleg Abramov afirma que, além da repressão policial, teme uma participação que julga "artificial" de alguns militantes nos protestos. O diretor da CUT, entidade que apoia o Governo federal, diz que setores conservadores podem estar presentes às manifestações com pautas que busquem "desgastar o Governo". "A parcela da classe trabalhadora vinculada à CUT vai expor suas pautas e vinculá-la ao apoio à presidenta Dilma. Esta 'queda de braço' com setores conservadores vai fazer parte da estratégia da CUT nos protestos."

Álvaro Lobo e Mariana Rebelatto, por outro lado, destacam a dependência dos políticos em relação aos grupos que detêm o poder econômico, o que pode condicionar quaisquer respostas do Poder Público à demagogia. "Há uma série de respostas paliativas, mas não uma nova forma de fazer política", constata Lobo. "Uma grave crise de representatividade está instalada na nossa democracia. Basta comparar, dentro do Congresso Nacional, os representantes dos interesses de grupos econômicos. O sistema eleitoral está subordinado ao financiamento de doações privadas", sustenta Mariana.

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você é a favor da proibição de rodeios em JF, conforme prevê projeto em tramitação na Câmara?