Rachaduras impedem uso de estação de água


Por EDUARDO VALENTE

28/04/2015 às 06h00- Atualizada 28/04/2015 às 08h54

Tanques apresentam trincas e rachaduras em razão de movimentos no subsolo (Olavo Prazeres/27-04-15

Tanques apresentam trincas e rachaduras em razão de movimentos no subsolo (Olavo Prazeres/27-04-15

As rachaduras encontradas na estrutura da Estação de Tratamento de Água (ETA), no Distrito Industrial, podem complicar ainda mais a situação do abastecimento de água nos próximos meses na cidade. Isso porque os tanques construídos para receber a água vinda de Chapéu D’Uvas não estão podendo ser utilizados. A consequência é que a água advinda deste manancial está sendo despejada nos antigos tanques, junto com o volume do Ribeirão Espírito Santo. Assim, apenas 250 litros de água por segundo da nova represa estão chegando aos lares. Este índice poderia ser bem superior, visto que o potencial de Chapéu D’Uvas é entregar até 900 litros por segundo na rede. Com essa situação, não há como preservar da maneira prevista a represa João Penido, que inicia o período de estiagem com 42,5% de sua capacidade.

A ETA Walfrido Machado Mendonça, conhecida como ETA-CDI, responsável por tratar a água do Ribeirão Espírito Santo, passa por obras de ampliação desde 2010 para poder atender, também, o recurso de Chapéu D’Uvas. No entanto, as intervenções, na ordem de R$ 10 milhões, apresentam sérios problemas estruturais, como o Sindicato dos Trabalha­dores no Serviço de Água (Sinagua) denuncia publicamente há cerca de duas semanas. Esta é uma das razões para que a Cesama mantenha o rodízio, que já completou seis meses, por tempo indeterminado.

Ontem a Tribuna esteve no local e constatou que os tanques construídos para operarem como floculadores e filtros estão com grandes rachaduras em razão de movimentos não previstos no subsolo. O problema, identificado no início do ano passado, já onerou os cofres da companhia em R$ 500 mil, em recuperação feita entre julho/2014 e fevereiro deste ano. Em 1º de abril, quando os primeiros testes de cargas com água de Chapéu D’Uvas começaram a ser feitos, as trincas voltaram e surgir, inviabilizando a continuidade do processo no dia 6 do mesmo mês. Agora a companhia aguarda que a empresa responsável pelo projeto se manifeste. Ainda hoje uma comissão da Câmara Municipal vai ao local avaliar o caso.

Conforme a Cesama, para não faltar água nos lares juiz-foranos, é preciso uma vazão média de aproximadamente 1.500 litros de água por segundo na rede. João Penido, que em situações normais opera com 800 litros por segundo, contribui atualmente com cerca de 550 litros por segundo. A previsão da companhia, em entrevista à Tribuna no início do ano, era reduzir esta capacidade para algo entre 250 e 300 litros por segundo a partir de fevereiro, se a ETA-CDI estivesse em operação plena. O restante da demanda é atendida pela Represa São Pedro (cerca de 140 litros por segundo) e pela própria ETA-CDI, sendo 250 litros por segundo oriundos de Chapéu D’Uvas e mais 500 litros por segundo do ribeirão.

Mudanças

De acordo com o diretor de Desenvolvimento e Expansão da Cesama, Marcelo Mello do Amaral, levando em consideração a probabilidade de chuvas e a possibilidade de reduzir a demanda por João Penido já esta semana para algo entre 400 e 450 litros por segundo, o manancial chegaria ao próximo período de instabilidade, em outubro, com os mesmos 18% de água acumulada observados no fim do ano passado. “Trabalhamos com este índice porque sabemos que, nele, a operação é possível. A redução da retirada de água vai acontecer porque estamos alterando o processo de tratamento da ETA-CDI, de forma que, mesmo sem as obras de ampliação, a estação possa tratar mais água por um tempo menor.” Para isso, Marcelo explicou que a mistura da água do ribeirão e Chapéu D’Uvas será alterada, tendo a nova represa como a principal contribuinte, com cerca de 500 litros por segundo. O ribeirão, neste caso, contribuiria com aproximadamente 350 litros por segundo.

Tal manobra seria possível após a substituição dos produtos químicos de tratamento que, segundo ele, já estão sendo testados. Além disso, há o fato de a água de Chapéu D’Uvas ser decantada naturalmente na represa, enquanto que a do ribeirão chegaria menos sedimentada a partir de agora, em razão da redução das chuvas, aperfeiçoando o processo. Ainda nesta semana, está prevista a instalação de rede elétrica nas bombas que captam água do manancial e levam até a estação. Como não havia rede disponível no local, esta atividade era feita por geradores de energia, movidos a óleo diesel.

Companhia cobra ressarcimento

na Justiça

Sobre os problemas estruturais na Estação de Tratamento de Água Walfrido Machado Mendonça (ETA-CDI), o diretor de Desenvolvimento e Expansão da Cesama, Marcelo Mello do Amaral, explicou que o custo de recuperação está sendo pago pela companhia que, porém, cobra o ressarcimento da empresa que projetou a intervenção. Segundo ele, o processo de licitação feito para a ampliação, de R$ 10 milhões, resultou na contratação de três empresas de engenharia, sendo uma responsável pelo projeto, a segunda pela execução e a terceira pela fiscalização.

“Constatamos, no ano passado, que houve um tipo de afundamento do solo após a construção das estruturas. Abrimos um processo administrativo e contratamos um perito da cidade para avaliar o caso. A conclusão, entregue em julho, é que a empresa responsável pelo projeto, a Engesolo, de Belo Horizonte, adotou um tipo de fundação que não previa algumas variáveis que poderiam ocorrer, e a recuperação custaria R$ 500 mil. Notificamos a empresa para que ela se manifestasse, e ela apresentou o projeto de recuperação.” Na época, conforme Marcelo, a companhia iniciou uma contratação emergencial, no modelo “dispensa de licitação” para executar o novo projeto, fato ocorrido entre outubro de 2014 e fevereiro deste ano. No entanto, ao iniciar os testes de carga, em 1º de abril, ocorreu novo deslocamento do solo, observado no sexto dia de uso da nova estrutura. “Um perito de São Paulo fez nova avaliação e, novamente, notificamos a Engesolo para se manifestar. Eles já fizeram visitas em campo, e estamos aguardando o parecer.”

Paralelamente, segundo Marcelo, os valores já pagos pela Cesama, na ordem dos R$ 500 mil, estão sendo cobrados à Engesolo na Justiça, em processo iniciado há três semanas. Ainda de acordo com Marcelo, as três empresas envolvidas na obra foram notificadas, mas a cobrança judicial envolve apenas a Engesolo, que é a responsável pelo projeto. A Tribuna procurou a empresa na tarde de ontem, mas não obteve retorno da direção da empresa.

De acordo com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores no Serviço de Água (Sinagua), Edinaldo Ramos, se a ETA-CDI já estivesse operando de forma plena, não haveria mais rodízio no abastecimento. “Entendemos que as empresas da licitação devem pagar a recuperação, e não a companhia tirando dinheiro dos cofres e reduzindo a participação nos lucros dos empregados.”