Reminiscências alinhavadas

“Meu pai tinha uma maquininha doméstica. Acordava de madrugada, porque havia menos indústrias funcionando, e a energia chegava melhor em casa. Eu despertava com aquele barulhinho da máquina funcionando. Tec tec tec”, recorda-se o alfaiate Roberto Geraldo Louzada, 47 anos de seus 58 fazendo o mesmo barulho que o pai. “Quando levantava, ficava olhando ele costurar, e ele me ensinava: isso daqui é bolso traseiro, bolso da frente, pertingal, braguilha, espelho. Eu ia assimilando aquilo até começar a treinar na máquina. Com 16 anos fui para São Paulo”, conta ele, que tempos depois retornou.
Decidiu-se pela cidade onde os tios aposentaram suas agulhas, trabalhando em grandes alfaiatarias locais. “Eles também eram alfaiates e trabalhavam, como meu pai, na Alfaiataria Primor”, lembra o filho de Laer, um mineiro de Mutum que teve a chance de conhecer o luxo e a fama dos italianos que se espalhavam pelo Centro de Juiz de Fora, principalmente pela Rua Halfeld, onde ficava a Primor. “O que tem de peculiar na alfaiataria de Juiz de Fora é a influência dos italianos. Vieram muitos imigrantes para cá, e, nas décadas de 1950 e 1960, quase todos os profissionais do ramo seguiam a tradição italiana”, destaca Tarcísio Louzada, filho de Roberto, referindo-se às casas de Damiance & Magalhães, Oscar Ribeiro, Vicente Rosa, Pacheco, Zanzoni, dentre outros.
A cidade dos muitos alfaiates e costureiras que se dedicavam exclusivamente aos feitios sob medida era a mesma das prolíficas indústrias têxteis e das abarrotadas lojas de tecidos. O trio tear, tecido e costura, que bem representava a Manchester Mineira, saiu de cena da forma como existia. Deu lugar à cidade contemporânea, de outras artesanias. Para Ricardo Zimbrão Affonso de Paula, historiador e professor da Universidade Federal do Maranhão, pesquisador da industrialização em Minas Gerais, “a partir dos anos de 1930, Belo Horizonte e a região mínero-metalúrgica assumem o papel de centro dinâmico da economia mineira, devido a intensificação da industrialização nacional”.
Pesponto: futuro
23 degraus levam ao ateliê de Roberto, e também ao de Graça, Sirlei, Luiz e outros tantos profissionais da costura. Dividem o espaço da Galeria Azarias Vilela, ao lado do Cine-Theatro Central, em pequenas ou agigantadas salas. Dividem a clientela. Dividem as lembranças de tempos melhores, mas não o pessimismo com o futuro. Formado em filosofia, estudante de direito, Tarcísio, 29, é Roberto amanhã, assim como seu irmão Cassiano, 22, que também se formou como técnico em marcenaria e agora observa os riscos, cortes e alinhavos do pai. “Hoje já não vemos tantos alfaiates. São poucos. A maioria está com mais de 70, 80 anos. É como o mico-leão-dourado, está em extinção. Muito em breve poderemos ser os únicos”, lamenta Roberto.
“Hoje a dificuldade é fazer com que a profissão seja atrativa para os mais jovens. A aprendizagem é muito longa. Para aprender a fazer uma calça, uma camisa, leva tempo”, comenta Tarcísio, vestindo a camisa que costurou. Há 20 anos no ramo, após abandonar o trabalho de caixa numa loja de tecidos, Maria das Graças de Oliveira, a Graça, 58, resolveu seguir os passos da irmã, Sirlei, e dedicou-se à costura, mas preferiu os consertos. “Sempre tem movimento. As pessoas ainda reformam muito as roupas”, afirma ela, citando a predominância das roupas compradas prontas em seu ateliê, no qual trabalham outras quatro profissionais. “A gente mexe com velho e novo, mas sempre roupa de loja. Hoje quase não vejo roupa feita por costureira.”
A realidade apontada por Graça é o que dá fôlego à indústria têxtil na cidade e no país atualmente. Os tecidos cederam espaço às confecções. Antes reconhecido produtor de tecidos de algodão, o Brasil confecciona, hoje, cerca de 9,8 bilhões de peças por ano, além de ser o segundo maior produtor mundial de denim e o terceiro na produção de malhas, conforme dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção. Ainda que amargue queda na produção na ordem de 14% desde 2014, o setor, que espera se fortalecer com o desenvolvimento do Pré-Sal, mantêm-se como o segundo maior gerador de emprego no país.

Cheias de graça
O coelho tem uma graça incomum. Não é fofinho, como os de verdade. É engraçado e desconcertante, com um olho maior que o outro, como as animações atuais. O capitão Jack Sparrow tem as reconhecíveis marcas da bandana vermelha, o bigode grande e os olhos bem marcados, a parecer maquiado. O Hannibal Lecter tem a máscara e o corpo todo envolto em uma camisa de força branca. A Frida Kahlo tem as típicas sobrancelhas e também um xale tal qual os mexicanos. Se perceber bem, verá que a Nossa Senhora das Graças tem a cobra aos pés. Tudo em tecido. Tudo simpático como os emoticons. Tudo divertido como a toy art. Tudo almofada, criações de Eveline Amaral, 59, e Rita Guedes, 54, da marca LiliTita.
Vendidas pela internet e em dois cafés de Juiz de Fora, as peças já desembarcaram em lugares como Canadá, Austrália, Estados Unidos, Noruega, Coréia, além de diversos estados brasileiros. “Começamos a fazer na mão, quando vimos o boom da coisa, passamos para a máquina”, conta Eveline, formada em design de moda, há mais de 20 anos amiga de Rita, graduada em letras e turismo. Ainda que sempre houvesse a proximidade, foi a afetiva relação com o tecido que as uniu numa prática que toma todas as tardes de ambas.
“Meu avô era artesão de balaio, esteira, rede, e minha irmã dá aula de artesanato. Ganhei esta máquina há 26 anos, e, quando comecei a entrar em depressão, meu médico me indicou os trabalhos manuais. Comecei a fazer fuxicos, terços de fuxicos, fui desenvolvendo e vendo que tinha essa habilidade”, conta Rita, autora de inventivos livros de contos de fadas feitos em tecido. “Sempre costurei, sempre mexi com roupa, fazia “tie dye”, bordados. Desde pequena. Tinha uma loja na Marechal, chamada Bazar Central, e eu ia lá todo dia. A mulher tinha uma caixa muito grande só com botões que eu adorava ver”, recorda-se Eveline, irmã de Arlindo Daibert, cuja série “Grande Sertão: Veredas” ela espera transpor para as almofadas.
A fábrica e os artesãos
É preciso acordar cedo, muito antes das 9h, para dar tempo de chegar até a Fábrica de Tecidos São João Evangelista, no Bairro Floresta, onde, todas as segundas e quartas, mulheres e homens se apertam para comprar, a preços mais baixos, retalhos dos panos produzidos lá. A maioria do público é formada por artesãos da cidade. O tecido tem se tornado, pouco a pouco, uma das principais matérias-primas para os artesãos locais. Em colchas, bonecos, enfeites de paredes, e mesmo em almofadas, apontam para uma característica do fazer local, que Eveline e Rita, que também acordam cedo para ir até a fábrica, bem representam. “Nossa dificuldade é sempre encontrar tecidos diferentes na cidade”, pontua Rita, que diz se deparar com boas e diferentes opções na única tecelagem existente em Juiz de Fora, das mais de 19 que existiram no início do século XX no município. “Mas também utilizamos o recurso da estamparia. A gente não se aperta”, brinca Eveline.
Seu tempo é hoje
“Tec tec tec”. Tarcísio ouve o barulho da máquina do pai no ateliê distante de casa. Ainda que a casa continue um pouco ali, onde estão alguns dos Louzada, como a esposa, irmãos e filhos de Roberto, além de funcionários, grande parte deles ocupando uma sala no segundo andar do prédio. Os tempos são outros, admitem. E a máquina nem chega a fazer tanto barulho. “Na época que comecei não tinha o maquinário que tem hoje. Lá em cima tenho overloque, debrum, modernizou tudo. Antigamente era tudo feito à mão. Não tinha calça de fecho, era botão. Ainda faço algumas coisas à mão, como esse caseado”, diz Roberto, apontando para um casaco e suas casas habilmente feitas com linha, agulha e o movimento das mãos.
Artesanal, por isso encantadora. Tarcísio e Cassiano perceberam na rede uma oportunidade de expandir ainda mais o negócio. “Geralmente associam a alfaiataria a algo mais arcaico, que não se modernizou. Tentamos, na medida do possível, acompanhar as mudanças, as tendências. Em termos de tecido, conseguimos trabalhar com produtos de tecnologia mais desenvolvida. Unimos a tradição da alfaiataria às modernidades”, pontua Tarcísio, que ao lado do irmão criou site e redes sociais para a empresa aberta pelo pai. Raro, por isso encantador, o ofício da costura, resiste. “É um mercado muito bom, um ramo que tem bastante futuro”, entusiasma-se Tarcísio, a terceira geração a ajudar na escrita da história de Juiz de Fora e seus tecidos.









