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19 de Fevereiro de 2012 - 07:00

Dira Paes aproveita fase mais dramática na TV na pele da batalhadora Celeste de 'Fina estampa'

Por MÁRCIO MAIO

O drama andava meio sumido do currículo televisivo de Dira Paes, mas parece ter voltado com força total. A intérprete da determinada Celeste de "Fina estampa" até é lembrada pelo grande sucesso da sequelada Solineuza de "A diarista" e da exuberante Norminha de "Caminho das Índias". Mas desde 2010, quando foi escalada para viver a sofrida Marta em "Ti-ti-ti", deixou a comédia de lado para encarnar tipos mais densos. "Acho bacana interpretar esses dois lados. A comédia é legal, porque aproxima a gente do público. Mas o drama também é muito bom porque faz com que as pessoas queiram ajudar você a resolver os problemas dos personagens", opina a atriz, que trilhou um caminho oposto ao da maior parte dos colegas, somando mais de 30 filmes no currículo. "Me orgulho por ter feito cinema em uma época em que isso não era chique. Agora que todo mundo quer fazer cinema, eu quero é fazer bem televisão", enfatiza, esbanjando autenticidade.

TV Press - Em "Fina estampa", a Celeste viveu momentos difíceis em função da violência do marido Baltazar. O que mais impressionou você ao trabalhar isso no ar?

Dira Paes - Fiquei muito admirada com o volume de pessoas que, nas ruas, me faziam a mesma pergunta: "por que ela insiste em ficar com ele?" Mas, ao mesmo tempo, também fiquei feliz, afinal, esse era mesmo o mote da personagem. A intenção era falar sobre a imobilidade mesmo. Violência doméstica não é uma novidade, já foi abordada em outras novelas. A gente mexe é na questão dessa imobilidade, do que faz uma mulher não conseguir sair de uma situação assim, na qual ela é a grande vítima.

- Mas, normalmente, os casais da dramaturgia que passam pelo problema da violência doméstica não costumam ser retratados com o furor sexual que Baltazar e Celeste têm...

- É, mas tem muita gente que se sente estimulada com problemas, com crises. Que fica vibrando nesse dínamo que é brigar e, depois, fazer as pazes. Mas o caso da Celeste sempre foi além disso. Ela realmente é apaixonada pelo marido, tanto que, mesmo depois de denunciá-lo, ela falava que conseguiria colocar ele na linha. E esse texto se repetiu algumas vezes em minhas cenas. Ela conseguiu se impor quando resgatou a autoestima e garantiu a independência dela. Antes, ela tinha um comportamento que acho que até ficou meio dúbio para o público. Eu quis mostrar como essas mulheres disfarçam a alegria. A Celeste tinha essa coisa leve, mas de quem é inseguro, de quem não sabe se dar o limite e dar limite aos outros. O que sobrava na Norminha (personagem de "Caminho das Índias") faltava na Celeste. E existem muitas mulheres assim, e há fatores que acabam contribuindo para esse tipo de comportamento.

- Que fatores?

- Bom, isso geralmente acontece com as mulheres que se casam com os primeiros namorados, que não têm outra referência masculina na vida a não ser o próprio homem, e morrem de medo de perdê-lo porque, na cabeça delas, "esse pelo menos eu conheço. Conheço a raiva dele, sei que vai me bater, mas aguento". E não é assim, a gente vê que quem apanha está sofrendo, e quem bate também. Sofre muito! Mas não acredito que as redenções sejam exclusivas das novelas ou dos filmes. Acho que o amor sincero é capaz de resgatar uma pessoa da sua falta de afeto.

- Você escuta muitos desabafos nas ruas de mulheres que sofreram ou sofrem com a violência dos maridos?

- Muitos, e de todos os lados. Colegas contando casos, falando sempre de pessoas muito próximas. Com depoimentos espontâneos de todas as classes, inclusive de pessoas públicas que passaram por esse problema. Procurei também ver o que era um comportamento médio, isso interessava muito - e é importante dizer isso - pois não estamos falando de uma briguinha, é um casamento de 18 anos. Observei muito os casos de pessoas que convivem há muito tempo com o problema, seja por dependência financeira, por se sentir incapaz de se sustentar ou até por achar que aquela é a única possibilidade de ser alguém na vida.

- Depois de mais de três anos em "A diarista" e de fazer humor também em "Caminho das Índias", esse é seu segundo papel dramático seguido mais recente na TV. Se surpreendeu com esses convites?

- Quando me chamaram para "Ti-ti-ti", pela história da novela e faixa de horário, até imaginei que seria um papel de comédia mesmo. E me surpreendi e gostei demais principalmente pelo grande choque entre a figura da Norminha, que eu tinha feito antes, e a da Marta, uma mulher absolutamente mãe, sem nenhuma ansiedade feminina e que acabou ganhando um espaço incrível.

- E como foi a reação do público ao ver você de forma tão diferente dos últimos anos?

- Olha, eu acho que as pessoas gostam de ver a gente fazendo comédia. Uma coisa que me deixou feliz foi que a Solineuza estava no ar na mesma época que estreou "Dois filhos de Francisco", e as pessoas não relacionavam uma personagem com outra, depois, se davam conta de que era a mesma atriz. Acho que tem um público que realmente quer te ver sempre no mesmo personagem, mas porque gostou mesmo, e tem outro que fica curioso para assistir coisas diferentes. A comédia faz com que as pessoas queiram estar próximas de você. No drama, elas ficam menos entregues, querem solucionar o problema.

- Na sua opinião, o que favoreceu para que seu nome fosse pensado para fazer humor em "A diarista" e "Caminho das Índias"?

- Antes da Solineuza, eu tinha feito um filme que foi minha primeira comédia mesmo, "O casamento de Louise", da Betse de Paula. Acho que minha atuação influenciou na opinião para que eu fosse escolhida para ser a Solineuza. Aí, quando veio a Norminha, em tese, não era um papel cômico. Na verdade, quando a gente via que tinha uma resposta da equipe técnica, acreditava que estava em um caminho bom. E vieram coisas mais detalhadas. Lembro que lá pelo capítulo dez entrou a música que dizia "Você não vale nada mas eu gosto de você". Aí, pensei: "pô, se é essa a música, eu posso relaxar mais". E eu já tinha guardado o beijinho no ombro - tinha visto uma menina que trabalha nos bastidores de cinema, a Luíza, fazendo. É um gesto maravilhoso, bem de quem se gosta. Estava esperando um papel em que coubesse e foi ali mesmo. Mas foi um furacão que eu não esperava. Até por isso eu acho que houve uma resistência das pessoas com a Marta e ainda teve um pouco na Celeste. Falam "ah, que saudade da Norminha" porque estão me vendo. Mas não sou mais aquele personagem.

- E você estava sentindo falta de papéis mais dramáticos na TV?

- Não sentia porque sempre tive outros trabalhos. Minha base vem dos personagens mais dramáticos do que cômicos, meu currículo mostra isso. O grande público de casa é que, agora, está vendo o contraponto da Norminha e da Solineuza, principalmente quem não se lembra de outros na TV, como "Irmãos coragem". Novela das oito tem peso maior, é diferente, você entra no ar e seu cotidiano muda.

- Mas você já disse, em outra entrevista, que sentia falta de interpretar um personagem "normal"...

- Sim, mas quando falo isso eu quero dizer fazer algo mais próximo de mim. Fiz poucas personagens assim, na verdade, nem consigo lembrar. As pessoas podem querer que eu seja a Norminha, mas eu não sou, e nem a Solineuza, a Marta, a Celeste... Acho que cada ator, depois de fazer mais de 25 anos de carreira, tem suas aspirações, e, normalmente, são lugares que você não visitou. Acho bem curiosa essa interpretação cotidiana, mais contemporânea. Os personagens naturalistas exigem muito, é bem difícil fazer e não cair em si mesmo.

- Você tem uma carreira cinematográfica extensa e anterior a essa valorização que o cinema ganhou nos últimos anos. Fica vaidosa com isso?

- A verdade é que sempre nadei contra a corrente. Me sinto, sim, orgulhosa por ter feito cinema em uma época em que isso não era chique, não estava na moda como se vê hoje. E agora, que todo mundo quer fazer cinema, e eu quero fazer bem televisão. Não posso virar as costas para uma coisa bacana que está me acontecendo. Quem tem a chance de fazer três novelas seguidas e com sucesso? Não estou dizendo que foram sucesso por minha causa, mas é muito bom fazer parte de equipes que são sucesso. E "A diarista" também entra nesse grupo. A Norminha foi um estrondo, "Ti-ti-ti" alavancou o sucesso do horário das 19h, enfim, me sinto envaidecida por esse currículo, mas me dediquei muito tempo para tê-lo. Fico honrada por poder fazer da feia à bonitinha, de ver que as pessoas acreditam na minha proposta artística.

"Fina estampa" - Globo - Segunda a sábado, às 21h

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