Papéis exóticos e alternativos são comuns na carreira de Leona Cavalli. Como a viciada em drogas Dália, da novela "Duas caras", de 2007, ou a desencantada Lígia, de "Amarelo manga", polêmico longa de Cláudio Assis. Com tantas personagens pesadas no currículo, dar vida à doce e simples Celina, de "A vida da gente", surpreendeu a atriz. "Ela tem seus dramas, mas é de uma leveza nobre. Não tive que mudar nada e nem por isso ela deixa de ser interessante. É uma das personagens que mais se parece visualmente comigo e ainda por cima, é gaúcha igual a mim", conta a atriz, natural da pequena Rosário do Sul. Na trama escrita por Lícia Manzo e dirigida por Jayme Monjardim, Leona interpreta uma pediatra que sonha em ter filhos. Depois de decepcionar-se com o marido Lourenço, de Leonardo Medeiros, ela embarca em uma realista jornada por uma produção independente. "Leio os capítulos e vejo frases que poderiam figurar em minhas conversas diárias. Acho que abordar temas reais de forma sincera e delicada é o grande mérito de 'A vida da gente'", valoriza a atriz de 42 anos.
TV Press - Você estava escalada para atuar em "Aquele beijo", atual novela das sete. Gostou de trocar de folhetim e viver a Celina de "A vida da gente"?
Leona Cavalli - As duas propostas eram interessantes. Não me meti na negociação, que foi feita pelos diretores das novelas e produtores de elenco. O Jayme Monjardim me convocou e fiquei bem satisfeita. Adoraria ter feito a novela do Miguel (Falabella), mas achei ótima a oportunidade de fazer uma personagem gaúcha, que lida com crianças. Apesar de não ser mãe e ainda não ter tempo para a maternidade, me dou muito bem com os pequenos.
- Esta é a segunda vez que você é dirigida pelo Jayme Monjardim. A primeira foi no filme "Olga", de 2004. Como foi esse reencontro na TV?
- Foi cinematográfico (risos). Além da forte ligação com as situações do cotidiano, "A vida da gente" tem um tempo diferente, um estilo de gravação e de ensaios pouco comuns na televisão. O processo é mais intenso, o que torna a linguagem dela próxima do cinema. E acho que o olhar sutil e delicado do Jayme e dos outros diretores da trama faz a diferença nas cenas, além do cuidado da equipe técnica com a fotografia, que é linda.
- Você estreou no teatro aos 16 anos, se envolveu intensamente com o cinema ao longo dos anos 1990, mas sua trajetória na TV só engrenou a partir da novela "Belíssima", de 2005. Nutria algum preconceito pela televisão?
- Cada um tem a sua trajetória. Não é preconceito. Em um país onde a maioria das pessoas assiste novela, ter esse tipo de limitação é loucura. Sou atriz e me alimento de público. Comecei muito cedo no teatro, fiz vários papéis, autores clássicos. Depois surgiu o cinema, onde trabalhei com diretores que admiro muito. De alguma maneira eu acho que tem sido um caminho próprio e no tempo certo. Tive a chance de me aprofundar e me dedicar a cada veículo de maneira intensa, e agora tenho estado presente em todos.
- O que a televisão representa na sua carreira?
- A televisão me ensinou a alegria do cotidiano. No cinema e no teatro, obras de tempo menor, você precisa representar algo muito significativo daquela personagem em pouco tempo. Na TV, os personagens ficam meses no ar e fazem muitas cenas simples. Aprendi a adicionar alegria e beleza aos pequenos atos. Além disso, você fica mais disciplinado. É muito texto para decorar e é necessário estar sempre pronto, isso desenvolve flexibilidade e um ritmo essencial ao ator.
- Além de atuar, desde 2005, você está à frente do programa "Brasil cult", do Canal Brasil, e se prepara para estrear na direção de cinema. O que a leva a criar projetos além da carreira de atriz?
- Tudo é em função da atuação. Adoro apresentar o "Brasil cult", onde falo sobre a vasta produção audiovisual brasileira, da qual faço parte. Essa intimidade com o cinema me despertou a curiosidade pela direção. É um projeto duplo que começou como curta e deve virar um longa, no qual divido a direção com o Ricardo Fuji. O filme chama-se "O arlequim da Rua 18", uma história urbana, mas com cenas na Amazônia. Como precisava de atores índios para alguns papéis, fiz uma oficina de interpretação em uma tribo indígena e essa preparação vai virar um documentário chamado "O caminho do Peabiru".
"A vida da gente" - Globo - Segunda a sábado, às 18h10



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