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05 de Janeiro de 2014 - 08:25

Por Cláudia Trevisan, correspondente - Agencia Estado

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A possibilidade de um acordo nuclear de longo prazo com o Irã e a redução nas importações de petróleo pelos Estados Unidos inquietam a Arábia Saudita e levam alguns intelectuais americanos a visualizar um cenário de aproximação com Teerã, em que os iranianos cooperem em relação aos interesses de Washington no Oriente Médio. Entre eles, destaca-se o combate à Al-Qaeda.

"Essa é uma grande civilização. Não é um país deserto", declarou o colunista do New York Times Thomas Friedman, no mês passado, ecoando o tom de admiração em relação ao Irã presente no discurso de parte da elite intelectual dos EUA.

A seu lado, Zbigniew Brzezinski, conselheiro de Segurança Nacional da gestão de Jimmy Carter, ponderava que a eleição do moderado Hassan Rohani, em junho, é uma indicação de que parcela significativa da população gostaria que seu país fosse mais parecido com a vizinha Turquia. "O Irã tem uma grande chance de se tornar um país democrático", disse Brzezinski, em evento promovido pelo Center for Strategic and International Studies.

Depois de mais de três décadas de profunda hostilidade, a eventual reaproximação entre EUA e Irã é encarada com apreensão pela Arábia Saudita, que nesse período se tornou um dos principais aliados dos americanos na região. "Enquanto os EUA veem o retorno do Irã ao cenário internacional como um desenvolvimento potencialmente salutar, a Arábia Saudita considera essa possibilidade um golpe profundo na posição regional do reino e uma ameaça existencial à família regente Al-Saud", escreveu Jeremy Shapiro, ex-funcionário do Departamento de Estado, em artigo publicado pela revista Foreign Affairs, em 26 de novembro.

Segundo Friedman, a Arábia Saudita quer um Irã sem armas nucleares e desprovido de influência. "Ela não quer um forte concorrente persa xiita, o segundo maior produtor de petróleo na região." Com uma população de 77 milhões de habitantes e abundância de recursos naturais, o Irã é o "poder regional hegemônico natural", ponderou Shapiro, posição que voltaria a ocupar na hipótese de normalização das relações como os EUA.

Ainda que considere esse cenário distante, o analista ressaltou que existem áreas nas quais os interesses de Washington coincidem mais com os de Teerã do que com os dos tradicionais aliados americanos na região. A mais importante é o combate a radicais sunitas, a corrente do islamismo que é majoritária na Arábia Saudita, seguida pela Al-Qaeda.

"O Irã teve um papel vital ajudando a derrotar o Taleban (no Afeganistão), que também é seu inimigo, uma milícia sunita fundamentalista. Quando nós quisermos sair do Afeganistão e preservar alguns de nossos ganhos, vamos precisar do Irã de novo como um aliado", afirmou Friedman, em posição idêntica à de Shapiro - que ressaltou que o Iraque é outro lugar onde EUA e Irã têm interesses comuns, em esforços de estabilizar o governo e combater extremistas sunitas, que acabam de avançar sobre duas das mais importantes cidades do país. "A Arábia Saudita, provavelmente, será de pouca assistência nesses esforços, já que apoia os extremistas no Iraque", escreveu.

Ajuda. No entanto, não será fácil deixar para trás 34 anos de animosidade e desconfiança. Daniel Serwer, do Instituto de Oriente Médio da Universidade John Hopkins, acredita que há um exagero no temor saudita em relação a uma eventual normalização das relações entre EUA e Irã.

Para que isso ocorra, avaliou, Teerã terá de abandonar uma série de atividades desestabilizadoras na região, entre as quais o apoio ao Hamas e ao Hezbollah, qualificados de terroristas por Washington. "Não creio que a possibilidade de um grande realinhamento na região seja alta, mas é possível que ele ocorra", disse ele ao Estado.

Em sua opinião, o principal fator que pode provocar mudanças na posição americana no Oriente Médio é o aumento da produção de petróleo e gás nos EUA e outros países ocidentais, entre os quais o Brasil. "A maior parte do petróleo do Golfo Pérsico agora vai para a Ásia", observou. "Parte da ansiedade dos sauditas vem do fato de que eles sabem disso e estão preocupados com a redução do engajamento americano na região. E eu acho que eles estão certos", afirmou.

Serwer defendeu que países asiáticos assumam ao menos parte das responsabilidades de segurança no Oriente Médio desempenhadas hoje pelos EUA para garantir o suprimento global de petróleo. "Nós gastamos muito dinheiro na segurança do Golfo e não há mais razão para isso. Temos de ajustar nossa política a uma nova circunstância, que é um Hemisfério Ocidental em grande parte energeticamente independente."

Também há resistências do lado iraniano à normalização das relações com os EUA, ponderou Brzezinski. "Durante a guerra Irã-Iraque (1980-1988), os iraquianos estavam usando armas químicas contra os iranianos. Adivinhem quem estava ajudando os iraquianos a selecionar e atingir seus alvos? Eu não quero nem falar, mas todos vocês sabem qual é a resposta. Isso me constrange", disse o ex-conselheiro de Carter. As informações são do jornal

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