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22 de Dezembro de 2013 - 21:13

Por (AE-AP) - Agencia Estado

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O imperador Akihito, do Japão, surpreendeu seu país no mês passado, quando o palácio imperial anunciou os planos para seu funeral. Seu desejo de uma cerimônia relativamente simples, e a própria atitude de fazer um planejamento antecipado, foram vistos como um bom exemplo em um país cuja população envelhece rapidamente.

Akihito, que completa 80 anos de idade nesta segunda-feira, ainda está ativo e fez uma visita oficial à Índia em novembro com a imperatriz Michiko, de 79 anos. Mas as preocupações quanto à sua saúde cresceram desde que ele fez uma cirurgia para implantação de pontes de safena, dois anos atrás, depois de ter enfrentado um câncer de próstata.

Depois de um painel de especialistas discutir a questão durante mais de um ano, o palácio imperial anunciou que Akihito será cremado e suas cinzas depositadas em um mausoléu menor do que o de seus predecessores, com Michiko a seu lado, no complexo imperial na zona oeste de Tóquio. A cremação de Akihito romperá uma tradição de 400 anos nas quais os imperadores do Japão eram enterrados.

A revelação dos planos do casal imperial para o fim da vida foi bem recebida no Japão, país em que um terço da população terá mais de 60 anos de idade daqui a cerca de 20 anos. A mudança na demografia e a erosão das tradições significam que muitos japoneses não têm parentes mais jovens para cuidar de seus assuntos depois da morte, ou mesmo para cuidar de seus túmulos.

"Eu realmente simpatizo com os sentimentos deles. Não podemos comparar a situação do casal imperial com a de pessoas comuns como nós, mas a preocupação deles faz sentido", disse Setsuko Imamura, 79, instrutora aposentada de uso de quimono. Imamura vem planejando para o fim da vida há algum tempo.

Um ano depois de seu marido morrer, em 2010, ela vendeu a casa em Hamamatsu, na região central do país, e mudou-se para uma casa de repouso perto da casa de uma sobrinha, na zona oeste de Tóquio. Oranizou suas finanças, escreveu um testamento e escolheu o quimono favorito para o enterro. Imamura disse que não quer nenhuma cerimônia e agora está tentando reservar um espaço num túmulo coletivo, que custa 300 mil ienes US$ 2.900) por participante.

Dessa maneira, argumentou, seus restos mortais não serão abandonados. Algum sobrevivente do grupo ou parente visitará o túmulo de tempos em tempos e levar flores. "Meu marido e eu não tivemos filhos, de modo que concordamos em não deixar nada para trás. E é assim que eu queri viver até o fim. Não quero dar trabalho a ninguém", acrescentou.

Imamura representa um segmento crescente da população idosa do Japão: mulheres que sobrevivem a seus maridos e provavelmente morrerão sozinhas, sem ninguém que arranje seu funeral ou resolva seus assuntos.

Uma pesquisa nacional feita em 2011 pelo sociólogo Kenji Mori, da Universidade Cristã de Ibaraki, mostrou que apenas 60% dos japoneses tinham um túmulo e parentes que cuidassem dele. A maioria considerava cerimônias funerárias uma obrigação e cerca de 40% diziam preocupar-se com o fato de esses arranjos darem trabalho a parentes ou vizinhos.

Assim como o casal imperial, um número cada vez maior de japoneses com 60 anos ou mais estão planejando suas próprias mortes. Na pesquisa de Mori, a maioria dos entrevistados disse que as cerimônias funerárias deveriam refletir os desejos dos mortos - uma nova maneira de pensar no país, encorajada por empresas especializadas.

Os funerais costumavam ser cerimônias conduzidas por parentes ou vizinhos, mas agora os rituais estão sendo afetados por incentivos das empresas e perderam seu significado tradicional, disse o sociólogo.

Toshiko Sasaki, executiva da Rede do Instituto de Associação Comunitária, que controla casas de repouso e faz pesquisas sobre o envelhecimento da população, disse que a baixa taxa de fertilidade, o envelhecimento e o enfraquecimento dos laços comunitários e familiares levaram muitos idosos a sentir-se isolados e abandonados. Até a segunda metade do século 20, o filho mais velho, mesmo casado, frequentemente vivia com os pais até que eles morressem.

"Os vínculos familiares mudaram muito. As pessoas agora consideram que funerais e túmulos devem refletir suas próprias ideias, e não as das famílias ou dos ancestrais", disse Sasaki. Livros sobre como escrever "mensagens de despedida" tornaram-se best-sellers e há uma variedade de seminários sobre "atividades de terminação" organizados por funerárias, por lojas de lápides e até por redes supermercados, como a Aeon. Também são organizados tours de cemitérios.

"A vida após a aposentadoria é longa e muitas pessoas continuam saudáveis e ativas. Acho que elas querem resolver logo suas preocupações, de modo a poder aproveitar o resto de suas vidas sem preocupações remanescentes", disse Kazuhiro Yoshida, porta-voz da divisão de serviços funerários da Aeon.

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