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09 de Dezembro de 2013 - 19:34

Por Marcelo Gomes - Agencia Estado

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Após um fim de semana marcado por episódios de violência em três favelas pacificadas (Rocinha, Cidade de Deus e Lins), especialistas em segurança pública avaliam que é chegada da hora de ajustes no programa das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Os recentes ataques resultaram em pelo menos seis pessoas baleadas, sendo três policiais militares. Segundo os estudiosos, o principal é melhorar a interlocução com os moradores das comunidades, a fim de resgatar a confiança na polícia. Também é preciso convencer as pessoas que a política de pacificação será permanente.

"As UPPs nunca conseguiram ser vistas como polícia comunitária, que está ali para garantir a segurança dos moradores. Os policiais continuam a agir como uma força externa que foi colocada ali. Talvez o tráfico começou a sentir que há espaço para reagir, e esses episódios de violência cada vez mais comuns podem ser um sinal. Além disso, os moradores têm dúvida se o programa de pacificação vai continuar depois dos grandes eventos. Afinal, o Estado não tem recursos para ocupar todas as favelas da Região Metropolitana dominadas por traficantes ou milicianos", ressaltou o doutor em Sociologia Michel Misse e diretor do Núcleo de Estudos em Cidadania, Conflito e Violência Urbana (NECVU) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Na opinião do doutor em Sociologia Ignacio Cano, o programa de pacificação está passando por um momento conjuntural de crise. "Na medida em que as UPPs vão se expandindo, aumenta a possibilidade de algo sair do controle. Além disso houve a recente mudança na cúpula da PM por conta das manifestações e também o impacto do caso Amarildo, na Rocinha. Mas no longo prazo, o balanço ainda é positivo: a base do projeto, que é a redução da letalidade e a retomada do controle dos territórios dessas comunidades, continuam. As UPPs precisam ganhar a legitimidade da população. Na maioria das favelas, a relação com as pessoas ainda é tensa. Isso precisa melhorar", disse Misse, que é coordenador do Laboratório de Análise da Violência (LAV) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Desde o início do projeto de pacificação, em dezembro de 2008, sete policiais militares de UPPs foram mortos em serviço. Os primeiros quatro episódios ocorreram em 2012. Este ano, houve três mortes, todas no segundo semestre.

Para a Secretaria Estadual de Segurança, os três ataques no fim de semana não é uma estratégia orquestrada do tráfico, e sim casos isolados. Em nota, o órgão disse que nunca teve a ilusão de que não haveria reação ao longo do processo. "Os bandidos não vão entregar seu 'império' de mão beijada. Mas o mais importante é que as Unidades de Polícia Pacificadora estão devolvendo os territórios aos seus verdadeiros donos, que são os moradores. Ainda temos desafios pela frente, mas uma coisa é certa: o Estado entrou para ficar e não vai sair mais", garantiu.

No fim da noite de domingo, traficantes atiraram contra policiais que patrulhavam o Morro do Gambá, no Complexo do Lins, zona norte. Durante o confronto, um projétil atravessou o colete à prova de balas e feriu um policial no peito. Os criminosos fugiram. A UPP foi inaugurada no último dia 2. Na manhã do mesmo dia, um morador da Cidade de Deus, na zona oeste, foi baleado na cabeça durante uma confusão entre PMs da UPP e moradores. Os policiais foram checar a reclamação de uma festa com música alta, feita por um morador, quando foram recebidos a tiros por um homem armado. Ele foi perseguido e capturado. Revoltados, moradores atiraram diversas pedras na direção dos policiais. E em meio ao tumulto, uma pessoa foi baleada.

Na Rocinha, dois moradores e dois PMs foram baleados num intervalo de cerca de 12 horas entre a noite de sexta-feira, 06, e a manhã de sábado, 07. Pelas redes sociais, moradores relataram a ocorrência de diversos confrontos ao longo do fim de semana. Ninguém foi preso.

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