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05 de Janeiro de 2014 - 08:19

Por Marina Guimarães, correspondente - Agencia Estado

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Os reiterados apagões que assolam a capital da Argentina e municípios da província de Buenos Aires desde meados de dezembro e a revolta popular que eles provocaram reforçaram a percepção da população de que o isolamento da presidente Cristina Kirchner aumentou.

Recolhida na residência familiar em El Calafate, na Patagônia, desde o dia 20, Cristina não enviou mensagem aos argentinos pelas festas de fim de ano, nem emitiu declarações de solidariedade aos cerca de 800 mil usuários afetados pelas interrupções no fornecimento de energia elétrica.

A ausência durante a crise energética, cuja onda de calor associada provocou a morte de 13 pessoas em 15 dias, alimenta todos os tipos de conjecturas políticas. "Por que a presidente não aparece: está de férias ou não se recuperou totalmente de sua doença? Quem está tomando as decisões no governo? Haverá medidas para resolver os problemas que angustiam a população? Todas essas perguntas são questionamentos que a população está fazendo neste momento", afirmou a cientista política Mariel Formoni, diretora da consultoria Management & Fit.

Os aliados políticos de Cristina também se mantém distantes. Nenhum político de peso saiu em sua defesa, como em situações anteriores. O governador da Província de Buenos Aires, Daniel Scioli, apontado como provável sucessor de Cristina na eleição de 2016, se afastou desta vez da Casa Rosada, que culpou as empresas pela crise. Scioli criou um fundo para financiar obras elétricas e não defendeu o governo federal. O ministro de Planejamento, Julio de Vido, e o chefe de Gabinete de Ministros, Jorge Capitanich, não reconhecem os erros e disparam contra as empresas.

Desde seu retorno ao poder, em 18 de novembro, após um prolongado repouso para recuperar-se de uma cirurgia na cabeça, a presidente fez somente dois discursos e apareceu em público em cinco oportunidades. Na última, criticou o aquartelamento das forças policiais na Província de Córdoba, governada por um de seus rivais políticos, José Manuel de la Sota. Sem reforço das forças federais, Córdoba terminou com violentos saques que se espalharam por 16 das 24 províncias e provocaram 16 mortes.

Em meio aos saques, em Buenos Aires, começavam os primeiros cortes no fornecimento de energia. "Há 15 dias que não temos luz e a água acabou porque não tem bombeamento. Não aguento mais", disse a dona de casa Marta Ferreyra, de 67 anos. Marta vive em um prédio de 10 andares no bairro portenho de Almagro, um dos mais prejudicados com a crise energética, ao lado de Caballito, Flores, Mataderos e outros. A mãe dela, de 87 anos, vive perto, em outro edifício de 8 andares. Com uma torção no tornozelo direito, todos os dias Marta sobe e desce as escadas dos dois edifícios para cuidar da mãe.

O professor Sergio Israel, de 37 anos, passou mais de 30 horas sem energia no Natal e outras 24 horas no ano-novo, além de enfrentar cortes intermitentes desde o dia 13. "Vou apresentar ação contra a empresa e o organismo de fiscalização do governo, porque se a empresa não investiu o que deveria ter investido, o governo não fiscalizou", afirmou. Luis Feider, de 73 anos, dono de uma loja de produtos elétricos há 22 anos em Caballito, contou que os clientes "inventam gambiarras mirabolantes para sair do aperto do calor, do escuro e provocam acidentes". Feider disse que nunca vendeu tantas luzes de emergência como agora. "Os cortes de dezembro são pelo menos 25% superiores aos de dezembro de 2012 e não tenho estoque", disse.

Fenômeno. Para a socióloga Graciela Romer, a crise é a ponta de um conjunto de demandas sociais não satisfeitas pelo governo. A falta de energia está acompanhada do aumento dos preços de combustíveis, transportes coletivos, impostos e a disparada da inflação, especialmente a de alimentos. Segundo cálculos do economista Rodolfo Santangelo, da consultoria M&S, a inflação de dezembro chegou a 4,1%.

Os preços, que até meados de 2013 ocupavam o quarto ou quinto lugar na lista de preocupações da população, saltaram para o primeiro, seguidos da insegurança e do desemprego, segundo observou Romer. Analistas explicam que as negociações salariais acompanharam a inflação, com altas entre 20% a 25%, no ano passado.

Mas, nos últimos meses, a inflação passou da casa dos 26% e promete chegar a 30%, em 2014, elevando as demandas salariais. "O que se pede hoje é que o Estado assuma a responsabilidade pelo que ocorre no país e tome medidas, mas o que a população sente é um governo ausente", afirmou Formoni. "Há muitas incógnitas, como sobre o que farão com os subsídios à energia e ao transporte, se cortam ou não; se haverá medidas contra a inflação, além do congelamento; como os governos federal, provinciais e municipais suportarão os aumentos salariais." As informações são do jornal

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